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Música

"Não é bom para o homem estar só mas ele está só, mesmo assim, ele espera e está só, ele adia e está só, só ele sabe que mesmo adiando chegará."
Natan Zach

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O inferno é aqui... Joãozinho foi pro céu...

"O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos.

Há dois modos de não o sofrermos.

O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos.

O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar."


Ítalo Calvino

domingo, fevereiro 11, 2007

Não acrediteis...

"Não acrediteis em coisa alguma apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis em coisa alguma só porque é dita e repetida por muitos. Não acrediteis em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não acrediteis em coisa alguma só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la como verdadeira. Não acrediteis no que imaginastes, pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa própria experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas, a isso aceitai como Verdade. E daí pautai a vossa conduta!"

Sidarta Gautama

domingo, dezembro 17, 2006

Um Natal bem Brasileiro.

SebastiãoSalgado-criançayanomami
"A beleza do Natal castiçamente brasileiro está em ser uma consagração de Deus Menino ou de Menino Jesus. Em contraste com o Natal europeu, cuja figura central é a de um bom e risonho Velho. O Deus Menino irradia esperança. Ilumina futuros. Dá confiança no que está para vir. Papai Noel tornou-se um mito grandemente comercializado e, ao mesmo tempo, a serviço de indústrias produtoras de artigos para presentes. ... O Natal é um desses aspectos, quer através de cordial e até fraterna troca de presentes entre adultos, quer das árvores de Natal com presentes para adultos e crianças. E com Papai Noel, de barbas brancas e metido em grosso casaco vermelho a resguardá-lo de neves, de frios não brasileiros, a representar, para gente dos trópicos brasileiros e de outras terras tropicais, uma navegação de verdes e dos verões como os do Brasil. O Menino Deus é um mito romântico. E sobretudo, um mito ecológico. Trata-se de Menino Deus nascido entre verdes quase tropicais. Quase brasileiros. Menino que teria crescido em vegetação semelhante à brasileira. É, portanto, figura muito mais nossa que o, aliás, bom velhote. Muito mais capaz de nos animar, aos brasileiros, meninos e adultos, de esperanças e alegrias. De regosijos em torno de sua figura. Regosijos em torno de seu presépio. Pastoris, cantos e danças em seu louvor."

Gilberto Freyre

sábado, outubro 28, 2006

Chão de palavras

Little_Fairy_by_DexterousDamsel-a sOoL!!A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.

A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa.

A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.

A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.

Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, outubro 24, 2006

Há Noites

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que leva-nos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

sun_rose_by_avenescent-a sOoL!!
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
A mais longínqua onda do seu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exatidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia

sábado, outubro 14, 2006

Construção da Noite

Lifes_like_a_Tree_by_x_horizon-a sOoL!!"No casulo há um homem
Mas o fundo é outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é outro lado.

É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é outro lado.

É a treva
Onde o homem foi fechado
Mas o fundo é outro lado.

É o silêncio
De um homem soterrado.

Mas o fundo é outro lado
Mas o fundo é outro lado.

É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.

E mistura-se à terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.

Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
É o outro lado
Que começa. "

Carlos Nejar in: http://ideias-soltas.weblog.com.pt

domingo, outubro 01, 2006

Hino dos Comedidos

stonewingsstillfly-a sOoL!!

"Não me agradam esse homens
bem fracionados no tempo,
cedendo-se amavelmente
em todas as ocasiões
e mais também
não me agradam
os partidários tão vários,
de toda moderação.

Vou passando bem distante
desses homens comedidos.
deses homens moderados.

Antônio guarda seu vinho
muito mais de vinte anos
para bebê-lo mais velho...
Clara não estréia o vestido
quer outra oportunidade.

Os noivos em castidade
bem além de doze anos
ainda apregoam o amor.

Os homens de ferro
hoje só sabem anunciar
uma mensagem de espera.

Aguarda a felicidade,
vê o momento oportuno,
não penses nunca em amor...
Nem sejas tão ansioso,
resiste à melhor viagem
desconhece a emoção.

O hino dos comedidos
de todos bem fracionados
a humanidade invadiu.

Desejam oportuníssimos,
sempre expelindo relógios
aguardam os melhores instantes
subdivididos em prazos,
doutrinam sincronizados,
sofrendo convencionais
apenas grandes tristezas
creditadas nos jornais.

Eu? Eu já sou diferente.
Não sei viver minha vida
entoada nesse hino
esterelizada em prazos
de regras universais.

Não me situo na espera
e por profissão de fé,
acredito em circunstância,
acredito em vida intensa,
acredito que se sofra,
mesmo muito, por amor.

Adeus homens moderados,
adeus que sou diferente.
Compreendo a mulher
que rasga as vestes
em grande dor
e sinto imensa ternura
pelo homem desesperado."

Lupe Cotrin

Biografia

Imaginary_by_TheTragicTruth_Of_Me-a sOoL!!

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

Miguel Torga

segunda-feira, setembro 25, 2006

O Sono das Águas

brilliantly__by___elle__.0-a sOoL!!
"Há uma hora certa, no meio da noite, uma hora morta, em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio,
na lagoa,
no açude,
no brejão,
nos olhos dágua,
nos grotões fundos.

E quem ficar acordado, na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira parar a queda
e o choro, que a água foi dormir...

Águas claras,
barrentas,
sonolentas,
todas vão cochilar.

Dormem gotas,
caudais,
seivas das plantas,
fios brancos,
torrentes.

O orvalho sonha nas placas da folhagem.
E adormece até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora de torpor

líquido
e inocente.

Muitos hão de estar vigiando,
e chorando,
a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono..."

Guimarães Rosa
'

domingo, setembro 24, 2006

Marcha

Colors_In_2_by_Nachkebia-a sOoL!!"As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes
nem fontes.

Apenas o sol redondo
e alguma esmola do vento
quebraram as formas do sono
com a idéia do
movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos
pelo fundo.

As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida
aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia
e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras,
águas,
pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda,
amarga
como qualquer fruto
agreste.

Mesmo assim amarga
é tudo que tenho
entre o sol e o vento:

meu vestido,
minha música,
meu sonho
e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos
a felicidade.

Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá
contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.

O horizonte corta a vida
isento de tudo,
isento...

Não há lágrima nem grito:
apenas
consentimento."

Cecília Meireles

sexta-feira, setembro 22, 2006

Os portadores de sonhos

"Em todas as profecias está prevista a destruição do mundo. Todas as profecias dizem que o homem criará sua própria destruição. Porem os séculos e a vida que sempre se renovam criariam também uma geração de amantes e sonhadores; homens e mulheres que não sonharam com a destruição do mundo, e sim com a construção do mundo das mariposas e dos rouxinóis. Desde pequeninos vinham marcados pelo amor. Por trás de sua aparência cotidiana guardavam a ternura e o sol da meia-noite. Suas mães os encontraram chorando por um pássaro morto e mais tarde muitos foram encontrados mortos como pássaros.

Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos por um inverno de carícias. Foi assim que proliferaram no mundo os portadores de sonhos, atacados ferozmente pelos portadores de profecias que falavam de catástrofes.

Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de utopias, disseram que suas palavras eram velhas - e de fato eram porque a memória do paraíso é antiga no coração do homem - os acumuladores de riquezas os temiam e lançavam seus exércitos contra eles, mas os portadores de sonhos faziam amor todas as noites e do seu ventre brotava a semente que não somente portava sonhos mas que os multiplicavam e os fazia correr e falar. E assim o mundo criou de novo a sua vida da mesma forma que havia criado os que inventaram a maneira de apagar o sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos climas gélidos e nos climas quentes pareciam brotar por geração espontânea. Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas torrenciais tiveram a ver com isso, a verdade é que, como formiguinhas operárias estes espécimes não deixavam de sonhar e construir mundos formosos, mundo de irmãos, de homens e mulheres que se chamavam companheiros, que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se diante da morte, se curavam e se cuidavam entre si, se ajudavam na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento e de suas claras percepções e de lá partiam os que os haviam conhecido portando sonhos, sonhando com novas profecias que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis, onde o mundo não haveria de findar na hecatombe mas onde os cientistas desenhariam fontes, jardins, brinquedos surpreendentes para fazer mais gostosa a felicidade do homem.

São perigosos - imprimiam as grandes rotativas
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos
São perigosos - murmuravam os artífices da guerra

Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas
Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos
Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.

Os portadores de sonhos conheciam seu poder e porsso nada achavam de estranho E sabiam também que a vida os havia criado para proteger-se da morte que as profecias anunciam E por isso defendiam sua vida até a morte. E por isso cultivavam os jardins de sonhos e os exportavam com grandes laços coloridos e os profetas obscuros passavam noites e dias inteiros vigiando as passagens e os caminhos procurando essas cargas perigosas que nunca conseguiram encontrar porque quem não tem olhos para sonhar não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.

E no mundo sucedeu um grande tráfico de sonhos que os traficantes da morte não podiam estancar; em todas as partes há pacotes com laços de fita que só esta nova raça de homens pode ver e a semente destes sonhos não se pode detectar porque está envolta em corações vermelhos ou em amplos vestidos de maternidade onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres que os carregam.

Dizem que a terra depois de os haver parido desencadeou um céu de arco-íris e soprou de fecundidade as raízes das árvores. Nós sabemos que os vimos. Sabemos que a vida os criou para proteger-se da morte que as profecias anunciam."

Gioconda Belli

"A chama de uma vela" (fragmento)

"(...)

A lâmpada vela,

e portanto vigia.

Quanto mais estreito é o fio de luz,

mais penetrante é a vigilância.

(...)

A lâmpada é um signo de uma grande espera.

Pela luz da casa distante,

a casa vê,

vela,

vigia,

espera.

(...)

Por sua luz,

a casa é humana.

Ela vê como um homem.

É um olho aberto para a noite.

(...)"

Painting_of_Light_by_Andross01-a sOoL!!

"Assim se fala da lâmpada como se poderia falar da luz que alumia os caminhos e que nos fascina, a luz de uma vela, tendo esta também um duplo sentido, o de alumiar e de aquecer. O que nos fascinará tanto numa simples vela?!

O seu lado romântico, que herdamos dos nossos antepassados oitocentistas? A cor vibrante e dilacerante que encerra? O perigo que existe ao acendê-la e torná-la chama? O simples derreter da cera em seu redor que cria montanhas e estalactites que, de forma natural, não podemos criar? O alumiar do caminho? Uma forma de obter luz natural? O misticismo da vela...!!!!

Que vejo eu, tu e todos numa vela? É um fascinio. E a luz acessa,... num quarto escuro, ... em noite cerrada ..., fala-nos de solidão. Remete-nos para o nosso passado de histórias encantadas. Transporta-nos para um outro mundo, o da imaginação e olhando lá bem do fundo ficamos à espera que o sonhador noturno, ou desesperado diurno, apague a luz e vá descansar num sono profundo. (...)"

Gaston Bachelard

quinta-feira, setembro 21, 2006

A implosão da verdade

Smoke_Dance_2_by_EvilxElf-a sOoL!!

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes.
Alegremente mentem.
Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem.
Mentem e calam.
Mas suas frases falam.
E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver a verdade
em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade pela mentira,
nem à democracia pela ditadura.

Evidente/mente a crer nos que me mentem

uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo permanente.

Mentem.
Mentem caricatural- mente.

Mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente,
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem clara/mente como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o linho.
Mentem com a cara limpa e nas mãos o sangue quente.
Mentem ardente/mente como um doente em seus instantes de febre.
Mentem fabulosa/mente
como o caçador que quer passar gato por lebre.
E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador com a armadilha.

E assim cada qual mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente,
mente,
mente.

E de tanto mentir tão brava/mente
constróem um país de mentira
— diária/mente.

Mentem no passado.

E no presente passam a mentira a limpo.
E no futuro mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar em torno à terra medieval/mente.

Por isto, desta vez, não é Galileu quem mente,
mas o tribunal que o julga herege/mente.

Mentem como se Colombo partindo do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria, viajando pelo avesso,
iludindo a corrente em curso,
transformando a história do país
num acidente de percurso.

Tanta mentira assim industriada me faz partir para o deserto
penitente/mente,
ou me exilar com Mozart musical/mente
em harpas e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem, mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros cuja verdade do canto nos toca matinalmente.

Penso nas flores cuja verdade das cores escorre no mel silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente jorrando luz,

embora tenha a noite pela frente.

Página branca onde escrevo.
Único espaço de verdade que me resta.
Onde transcrevo o arroubo,
a esperança,
e onde tarde ou cedo
deposito meu espanto
e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva se não explode pra fora
pra dentro explode implosiva.

Affonso Romano de Sant'Anna

O homem, as viagens...

Bad_Moon_by_voras-a sOoL!!

O homem, bicho da Terra tão pequeno

chateia-se na Terra

lugar de muita miséria e pouca diversão

faz um foguete, uma cápsula, um módulo

toca para a Lua

desce cauteloso na Lua

pisa na Lua

planta bandeirola na Lua

experimenta a Lua

coloniza a Lua

civiliza a Lua

humaniza a Lua

Lua humanizada: tão igual à Terra

o homem chateia-se na Lua

Vamos para Marte, ordena à suas máquinas.

Elas obedecem, o homem desce em Marte

pisa em Marte

experimenta

coloniza

humaniza Marte com engenho e arte

Marte humanizado, que lugar quadrado

vamos a outra parte?

Claro diz o engenho

sofisticado e dócil.

Vamos à Vênus

o homem põe o pé em Vênus,

Vê o visto, é isto?

Idem
Idem
Idem

O homem funde a cuca se não for à Júpiter

proclamar justiça com injustiça

repetir a fossa

repetir o inquieto

repetitório

Outros planetas restam para outras colônias.

o espaço todo vira Terra-a-terra.

o homem chega ao Sol ou dá uma volta

só para te ver?

Não vê que ele inventa

roupa insiderável de viver no Sol

põe o pé e:

Mas que chato é o Sol, falso touro espanhol domado.

Restam outros sistemas fora

do solar a colonizar.

ao acabarem todos

só resta ao homem

(estará equipado?)

a dificílima dangerosíssima viagem

de si mesmo a si mesmo:

por o pé no chão

do seu coração

experimentar

colonizar

civilizar

humanizar

o homem

descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas

a perene, insuspeitada alegria

de con-viver.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, setembro 18, 2006

Poema

Girl_and_Bird_II_by_kayceeus-a sOoL!!
"Podemos falar dos sentimentos, descrever as impressões que nos ameaçam, e revelar o vazio que se descobre na ausência um do outro: nada, porém, é tão inquietante como a dúvida, o não saber de ti, ouvir o desânimo na tua voz, agora que a tarde começa a descer e, com ela, todas as sombras da alma.

É verdade que o amor não é apenas um registo de memórias. É no presente que temos de o encontrar: aí, onde a tua imagem se tornou mais real do que tu própria, mesmo que nada te substitua.

Então, é porque as palavras são supérfluas; mas como viver sem elas? Como encontrar outra forma de te dizer que o amor é esta coisa tão estranha, dar o que nunca se poderá ter, e ter o que está condenado a perder-se?

A não ser que guardemos dentro de nós, num canto de um e outro a que só nós chegamos, sabendo que esse pouco que nos pertence é tudo o que cabe neste sentimento."

Nuno Júdice

domingo, setembro 17, 2006

Balancete

RicardoDaCosta
Correr

por estas estradas longas correr
por estas palavras ágeis
corretas

nada é o nosso tema

e

motivo

-oh maya: ilusão é o teu nome-
ai dos que buscam a perfeição em tempos pardacentos!

Correr

por estas estradas vastas como a vida
a suportar além da própria dor intransferível

a

desgraça nacional.

Antônio Brasileiro

segunda-feira, setembro 11, 2006

Variações do branco

"Ergues o olhar:

Surpreendes por instantes essa hora em que o mundo envelhece:

Tênues as variações do branco parecem dissolvê-lo
numa longínqua música,
anterior à chuva ou será então a imagem submersa
de um filme
a preto e branco

Há próximo um branco vibrante:

O da cal ainda recente
mas que a umidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza
na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui.
Quem te chame, digo.
Há o branco baço na parede que em frente em vão
separa
rua
e
praia.

Tendo já transposto essa fronteira incerta ou erguendo-se para lá dela
há o branco pobre da areia:

PunchLoveDrunk-a sOoL!!

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados
de mar
e céu.
Aí é agora o grande branco:
O clarão velado e difuso que guarda e distribui a memória embaciada
do azul
e do
verde,
do
ouro
e da
prata
— uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo
essa névoa branca e desolada
que o motor da paisagem produz.
As folhas do ar são como se fossem as levíssimas pétalas,
as vagas sílabas de uma neve
– e essa névoa engolfa,
atrasa
e
apaga
na travessia os simulacros
das
coisas
supostas
e
imaginadas
que o mundo te envia
enquanto
esperas
por
alguém
que
não virá."

Manuel Gusmão

Embora entedesses nada...

falling___by_kleinerkampfhamster

"Embora me escutasses nada saberás de mim
e fosses à janela
e embora olhasses não me vês que passo
e digas um adeus pequeno
e embora às vezes já sentisses náusea
e afinal te inclinas
e embora seca embora secamente
e finjo que não ligo
e embora as baças tênues luzes dás
e eu por timidez sempre apagado
e embora as marés-vivas batendo
e amámos nisso o Verão
e embora lerda a caneta se apure
e tu não entendesses nada
não entendesses nada."

Fernando Assis Pacheco

sábado, setembro 09, 2006

A índole da multidão

"Há suficiente Traição, Ódio, Violência,
Absurdo no Ser Humano Comum para abastecer qualquer exército
A Qualquer Momento.

E os Melhores Assassinos são aqueles que Pregam Contra o Assassinato.
E os Melhores no Ódio são aqueles que Pregam o Amor.
E os Melhores na Guerra - enfim- são Aqueles que pregam a Paz.

Aqueles Que Pregam Deus
Precisam de Deus
Aqueles Que Pregam a Paz
Não Têm Paz.
Aqueles que pregam o Amor
Não têm Amor

Cuidado com os Pregadores
Cuidado com os Conhecedores.
Cuidado com aqueles que estão Sempre a ler Livros
Cuidado com aqueles que ou Detestam a Pobreza ou se Orgulham Dela

Cuidado com aqueles rápidos em Elogiar
Pois Precisam de Louvores em retorno
Cuidado com aqueles rápidos em Censurar:
Esses Temem o que Desconhecem
Cuidado com aqueles que procuram constantemente Multidões;
Eles Não São Nada Sozinhos

bliss_by_CocoChantal-a sOoL!!

Cuidado:

O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
Cuidado com o Amor Deles

O seu Amor é Vulgar, busca Vulgaridade
Mas Há Força No Seu Ódio
Há Força Suficiente
No Seu Ódio Para Matar,
Para Matar Qualquer Um.

Não Esperando a Solidão
Não Entendendo a Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que defira
Deles Mesmos

Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte

Considerarão o Seu Fracasso
Apenas Como uma Falha
Do Mundo

Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles Acreditarão que o Seu Amor é Incompleto
Então Odiar-te-ão
E o Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
Como Um Tigre
Como Cicuta."
Charles Bukowski

Reconhecimento à Loucura


"Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objetos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.

Bruise_by_thegirlinthebigbox-a sOoL!!

E depois mostrar-nos o que há-de vir muito melhor do que está? E dar-nos a cheirar uma cor que nos faz seguir viagem sem paragem nem resignação? E sentirmo-nos empurrados pelos rins na aula de descer abismos e fazer dos abismos descidas de recreio e covas de encher novidade? E fazer frente ao impossível atrevidamente e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe a ponto do impossível ficar possível? E quando tudo parece perfeito poder-se ir ainda mais além? E isto de desencantar vidas aos que julgam que a vida é só uma? E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só,
loucura,
és capaz de transformar o mundo
tantas vezes quantas sejam as necessárias
para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões
que hão-de viver juntas.

Tudo,
exceto tu,
é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar a quem tas vier buscar.

José de Almada Negreiros