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Música

"Não é bom para o homem estar só mas ele está só, mesmo assim, ele espera e está só, ele adia e está só, só ele sabe que mesmo adiando chegará."
Natan Zach

domingo, setembro 07, 2008

Para quando chegar o fim

MARIAH-a sOoL!!E se só restar o silêncio
Da insônia de uma calha
Que não se cansa de gotejar.
E se só restar para contar
Uma história sem história,
A noite perdida
De 40 cigarros
Fumados sem sentido.
E se só se tratar
De retratar sempre
A mesma paisagem sempre,
A mesma miséria sempre.
E se este coração dormir
Anestesiado
E sentido-se supérfluo
Bater de vagar,
Chorando uma falsa lágrima.
E se só restou para desfrutar
Esta paz de soníferos
Este canto tedioso,
Esta monótona melodía,
Esta saudade de dois lugares.
Para quando chegar
O final improvisado
Não ficará mais que um
" resignado irmão"
para pagar
a entrada na eternidade
ou o nada
que nos espera.
Nos deixarão só
Os músculos cansados, só
Os lábios cansados, só
As mãos cansadas, só
Os dedos cansados, só
Para justificar
Esta ausência da existência
Que nunca nos cansamos
De dar por subentendida
Presente, medíocre
E ironicamente
Especial e eterna.

Gito Minore - tradução: Cleidiner Ventura

sábado, julho 19, 2008

Urgente... Mais flores.

GEISA1-a sOoL!!É preciso avisar toda a gente
Dar noticia, informar, prevenir
Que por cada flor estrangulada
Há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
Segregar a palavra e a senha
Engrossar a verdade corrente
De uma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente
Que há fogo no meio da floresta
E que os mortos apontam em frente
O caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente
Transmitindo este morse de dores

É preciso, imperioso e urgente

Mais flores, mais flores, mais flores.


João Ricardo e João Apolinário (Secos & Molhados)

terça-feira, julho 15, 2008

Assim

Whirling_Dervishes-Danca Sufi-a sOoL!!
Se alguém lhe perguntar como se desvela
a mais perfeita sensação do gozo,
eleve os olhos e diga

Assim.

E quando alguém mencionar
a graça do céu noturno,
suba no telhado, dance, e diga

Assim?

Se alguém quiser saber o que é
o espírito, ou a essência de Deus,
incline a fronte em sua direção,
mantenha o rosto colado

assim.

E quando alguém evocar a velha poesia
das nuvens que, aos poucos, encobrem a lua,
afrouxe pouco a pouco os nós da tunica.

Assim?

Se alguém quiser saber como Jesus
levantou os mortos das tumbas,
não tente explicar o milagre.
Beije seus lábios.

Assim. Assim.

E quando alguém perguntar
o que é morrer por amor,
faça um sinal

aqui.

Se alguém quiser saber quão alto é,
hesite, e meça com seus dedos
os espaços entre as rugas da sua testa.

Deste tamanho.

A alma às vezes larga o corpo,
e então retorna. Se alguém não acreditar,
volte para a minha morada.

Assim.

Quando os amantes sussurram,
estão contando a nossa
história

Assim.

Eu sou um céu onde espíritos vivem.
Mergulhe neste azul profundo
onde a brisa espalha segredos

Assim.

Quando alguém perguntar
o que há-de se fazer,
acenda a vela em suas mãos.

Assim.

Como o perfume de José
chegou a Jacó?

Shhhhhhh!

E como retornou
o suspiro de Jacó?

Shhhhhhh!

A brisa suave limpa os olhos.

Assim.

Quando Shams retornar de Tabriz,
seu rosto há-de mostrar-se atrás da porta,
e nos surpreenderá.

Assim.

Poema Sufi - Jalal ud-Din Rumi (1207-1273)

segunda-feira, junho 16, 2008

Vento, água, pedra

Flying_High_by_disgruntledsoap-a sOoL!!A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.

Octávio Paz - Trad. Antônio Moura

domingo, junho 15, 2008

Desfile

"Patifes sólidos. Muitos já exploram vossos mundos. Sem carências, e pouca pressa em aplicar suas brilhantes faculdades e sua experiência de vossas consciências. Que homens maduros! Olhos vidrados como noite de verão, vermelhos e negros, tricolores, aço salpicado de estrelas douradas; faces disformes, plúmbeas, pálidas, em brasa; rouquidões burlescas! os passos cruéis dos ouropéis! — Alguns são jovens, — mas como encarariam Querubim? — munidos de vozes medonhas e truques perigosos. São enviados amarrados pras cidades, fantasiados com um luxo que dá nojo. Oh! O mais violento Paraíso da careta furiosa! Nada comparável a seus Faquires e outra tantas teatrais bufoneiras. Em trajes improvisados com sabor de pesadelo, encenam litanias, tragédias de malandros e semideuses cheios de graça, como jamais foram a história ou as religiões. Chineses, Hotentotes, ciganos, otários, hienas, Moleques, velhas demências, demônios sinistros, misturam os modos populares, maternais, com poses e ternuras bestiais. Interpretariam peças novas, canções “para moças”. Mestres jograis, eles transformam o lugar e as pessoas, e usam a comédia magnética. Os olhos ardem, o sangue canta, ossos se dilatam, escorrem lágrimas e fitas de carmim. Sua folia ou seu terror dura um minuto, ou meses inteiros.

Watch_the_Seasons_Die_by_BleedingTheOrchid-a sOoL!!
Só eu tenho a chave desse desfile selvagem."

Artur Rimbaud in: Iluminuras

domingo, junho 08, 2008

Assim...

MARIAH- a sOoL!!
"(...) Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e a última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo não sabem amar: têm que aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria a união de algo esclarecido, inacabado, dependente? O amor não é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos "escutar e martelar dia e noite". A fusão com o outro, a entrega de si, toda espécie de comunhão não são para eles; ... são de aço acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana. (...)"

Rainer Maria Rilke

sábado, maio 24, 2008

Reverso

Mariah-a sOoL!!O que muito me confunde é que no fundo de mim estou eu e no fundo de mim estou eu.

No fundo sei que não sou sem fim e sou feito de um mundo imenso imerso num universo que não é feito de mim.

Mas mesmo isso é controverso se nos versos de um poema perverso sai o reverso.

Disperso num tal dilema o certo é reconhecer:

no fundo de mim sou sem fundo.

Antonio Cicero

Blanco

NubarAlexanian-a sOoL!!Me vejo no que vejo
Como entrar por meus olhos

Em um olho mais límpido
Me olha o que eu olho

É minha criação
Isto que vejo

Perceber é conceber

Águas de pensamentos
Sou a criatura do que vejo

Octávio Paz

quinta-feira, maio 22, 2008

Amor (parte III)

SandraSilvestre-a sOoL!!“De amor devíamos falar em surdina; é o mais frágil dos materiais humanos. Um grito e muda-se em instalação de cacos, uma inclinação do olhar e perde-se na máquina da multidão. Distrai-se o amante e transforma-se em simples coisa amada, acariciada, gasta como a concha que se guarda e se esquece, empurrada pelo mar para o fundo do armário. Tropeçamos nele quando já nem nos lembrávamos da gaveta onde o havíamos escondido até à memória do olvido derradeiro - em que praia encontrámos esta concha? De que cor era quando nos atraiu, no seu brilho intermitente, alagado de sol? Tocamos-lhe, anos depois, e a rocha vermelha de que é feito esse bicho hibernante a que chamamos coração começa a mover-se de novo, esquecendo a decisão antiga que o acalmara em mineral. O coração que acorda não recorda a dor que o adormeceu; esqueceu tudo menos o tormento voluptuoso desse tempo de entrega que não passou. Ruíram as pontes, esboroaram-se as moradas, mas o tempo não passou - o tempo desse processo revolucionário em curso, a sépia e sangue, que só depois reconhecemos como filme da nossa vida.”

Inês Pedrosa

sábado, maio 03, 2008

Um sopro obscuro

HugoTinoco-a sOol!!
"(...) Mas ao menos agarrava esta verdade tanto quando esta verdade se agarrava em mim. Tinha tido razão ainda tinha razão, teria sempre razão. Vivera de uma certa maneira e poderia ter vivido de outra. Fizera isto e não aquilo. Não fizera determinada coisa, ao passo que fizera esta outra. E depois? Era como se durante todo tempo tivesse esperado por este minuto e por esta madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância e eu sabia bem por quê. Tambêm ele sabia por quê. Do fundo do meu futuro, durante toda essa vida absurda que eu levara, subira até mim, através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava, à sua passagem, tudo o que me haviam proposto nos anos, não mais reais, que eu vivia. (...)"

Albert Camus in: O estrangeiro

Para o inferno com isso...

MariaJoseAmorim-a sOoL!!"(...) Não se pode construir uma casa sem prego e sem tábuas. Se você não quer que uma casa seja construída, esconda os pregos e as tábuas. Se você não quer que uma pessoa seja politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para se preocupar. Dê-lhe um só. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Será melhor ela esquecer que existe uma coisa como a guerra. Se o governo for ineficiente, autoritário e perdulário, é melhor ser tudo isso sem que as pessoas se preocupem com essas coisas. Paz, Montag.

Dê às pessoas concursos que elas ganham lembrando-se das letras das canções mais populares, dos nomes das capitais ou de qual estado produz mais petróleo. É melhor entulhá-las de dados não combustíveis, entupi-las com tantas “informações” que elas se sintam enfastiadas, mas muitíssimo “brilhantes”. Aí elas acham que estão pensando, ficam com uma impressão de estar em movimento sem se mexer. E ficarão felizes porque os fatos dessa espécie não se modificam. Não lhes dê coisas escorregadias, como filosofia ou sociologia para embrulhar as coisas. Esse é o caminho da melancolia. Qualquer homem que seja capaz de desmontar uma TV mural e montá-la de novo (e hoje em dia quase todo mundo sabe fazer isso) é mais feliz do que o homem que tenta calcular, medir e equacionar o Universo, que simplesmente não se deixa medir ou equacionar sem que o homem se sinta vil e solitário. Eu sei, eu já tentei. Para o inferno com isso.

Então, vamos lá, com clubes e festas, acrobatas e mágicos, saltimbancos, carros a jato, ciclo-helicópteros, sexo e heroína, tudo o que tem a ver com reflexo automático. Se o drama é ruim, se o filme não diz nada, se a peça é vazia, agite-me com sons eletrônicos e bem altos. Vou pensar que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil às vibrações. Mas não ligo. Tudo o que eu quero é uma boa diversão. (...)"

Ray Bradbury in: Fahrenheit 451

quinta-feira, maio 01, 2008

Permanecer

MARCOSGEBIN-a sOoL!!
"(...) só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor,
porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal.
Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro,
de se polir um contra o outro,
e todo esse sistema interminável de concessões mútuas...
e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento,
tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro,
quando cada um deles deve se enraizar robustamente
em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro. (...)"

Lou Andreas-Salomé

No que acredito...

GraçaLoureiro-a sOoL!! "Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida.

Mas desdenho tremer de terror à idéia do aniquilamento.

A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para sempre.

Muitos homens já se portaram orgulhosamente no cadafalso; certamente o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o posto do homem no mundo.

Mesmo se inicialmente as janelas abertas da ciência fazem-nos tremer após o quente aconchego dos mitos antropomórficos tradicionais, no final o ar fresco revigora, e os grandes espaços têm o seu próprio esplendor."

Bertrand Russell in: http://antoniocicero.blogspot.com

sexta-feira, março 14, 2008

A porta branca

NunoFerreira-a sOoL!!Por detrás desta porta,
uma de todas as portas
que para mim se abrem e se fecham,estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado,
dois olhos que vigiam
os fenômenos naturais,
incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas,
sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos
fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.

Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, março 11, 2008

O Universo

Uns dizem que é aberto
outros que é fechado
outros ainda que é plano
Cada um

GracaLoureiro-a sOoL!!

consoante o seu desejo.

Para mim o universo
tem a forma de um beijo.

Jorge Sousa Braga

domingo, fevereiro 03, 2008

Como de súbito na vida

Mariah-a sOoL!!
"Como de súbito na vida tudo cansa! E cansa-nos a vida e nos cansamos dela, ou ela é quem se cansa de nós mesmos, na teima de existir e desejar?

Porque, neste cansaço, não o que não tivemos, ou que perdemos, ou nos foi negado, o que de que se cansa, mas também o quanto temos, nos ama, se nos dá a até os simples gozos de estar vivo.

Um dia é como se uma corda se quebrara, ou como se acabara de gastar-se, que nos prendia a tudo e tudo a nós.

Não é que as coisas percam importância, as pessoas se afastem, se recusem, ou nós nos recusemos. Não é mais ou menos que isto - se deseja igual ao como até há pouco desejávamos.

É talvez mais. Mas sem valor algum.

O dia é noite, a noite é dia, a luz se apaga ou se derrama sobre as coisas mas elas deixam de ter forma e cor, ou se sumir no espaço como forma oculta.

E o que sentimos é pior que quanto dantes sentíamos nas horas ásperas da fúria de não ter ou de ter tido.

Porque se sente o não sentir. Um tédio... Não como o tédio antigo. Nem vazio. O não sentir. Que cansa como nada.

Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa."

Jorge de Sena