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"Não é bom para o homem estar só mas ele está só, mesmo assim, ele espera e está só, ele adia e está só, só ele sabe que mesmo adiando chegará."
Natan Zach

domingo, dezembro 09, 2007

Há uma honra

morning_butterflies_by_BlepharopsisOT-a sOoL!!
"Desejava duas coisas, a primeira era a possessão absoluta. A segunda era a lembrança absoluta que ele lhe queria deixar. Os homens sabem tão bem que o amor está votado à morte que trabalham pela memória desse amor durante todo o tempo que vivem. Ele queria deixar-lhe uma grande ideia de si mesmo a fim de que o seu amor fosse grande, definitivamente. Sabia, porém, agora, que ele próprio não era grande, que ela, mais cedo ou mais tarde, o viria a saber um dia, e que, em vez da recordação absoluta, seria para ele pelo menos a morte absoluta. A vitória, a única vitória seria reconhecer que o amor pode ser grande mesmo quando o amante o não é.

Mas ele ainda não estava preparado para essa terrível modéstia.

Levava consigo, gravada a ferro em brasa, a recordação desse rosto roído pela dor... É nesta época, aproximadamente, que ele perde a estima de si mesmo que até aí sempre o havia amparado... Inferior ao amor, ela tinha razão.

Pode-se amar estando a ferros, através das paredes de pedra espessa de vários metros, etc... Mas se uma parte do coração, por mais pequena que seja, estiver submetida ao dever, o amor verdadeiro torna-se impossível.

Ele imaginava um futuro de solidão e de sofrimento. E encontrava um prazer difícil nessas imaginações. Mas era por supor o sofrimento nobre e harmonioso. E na realidade imaginava assim um futuro sem sofrimento. Desde o instante em que a dor surgia, pelo contrário, já não havia vida.

Ele dizia-lhe que o amor dos homens é assim, uma vontade, não uma graça, e que ele próprio tinha de ser conquistado. Ele jurava-lhe que isso não era o amor.

Perdera tudo, até a solidão.

Ele gritava-lhe que isso era a morte para ele, mas este grito não a atingia. Ë que, no cimo da sua exigência, achava natural que ele morresse, pois que falhara.

Tudo deve ser perdoado, e sobretudo o fato de se existir. A existência acaba sempre por ser uma má ação.

Foi nesse dia que a perdi. A desgraça só mais tarde pareceu dar-se. Mas ele sabia que fora nesse dia. Para a conservar deveria nunca ter falhado. O rigor dela era de tal ordem que ele não podia cometer um único erro, dar mostras de uma só fraqueza.

De qualquer outro teria ela admitido isso, tinha-o admitido e admiti-lo-ia. Não dele. São os privilégios do amor.

Há uma honra no amor. Perdida ela, o amor nada é."

Albert Camus

terça-feira, novembro 20, 2007

Neste preciso tempo, neste preciso lugar


No princípio era o Verbo
(e os açucares e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado da varanda de um 3º andar
e todo o Passado vem exatamente desaguar
neste preciso tempo,
neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado, deitando-lhe o enviezado olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence, a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre gente indefinidamente presente
entrando na minha vida por uma porta de saída
que dá já para a memória
Também eu (isto) não tenho história senão a de uma ausência

entre

indiferença
e
indiferença...
Manuel António Pina

sábado, julho 21, 2007

Canção outonal

rose_by_simmery-a sOoL!!

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma da névoa.

A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.

Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rodas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?

Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos na Terra?

Se o azul é um sonho
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?

Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena."

Frederico García Lorca

Sobreviventes

Your_AngelAmandaKeeys-a sOoL! "Quando em um acidente

uma explosão
um terremoto
um atentado

salvam-se quatro ou cinco

cremos
                         insensatos
que derrotamos a morte
mas a morte nunca
se impacienta
pois, com certeza
sabe melhor do que ninguém
que os sobreviventes
também morrem."

Mario Benedetti

sexta-feira, julho 20, 2007

Caindo para o Sul: Brasil

BrasilMistura_insana-a sOoL!!
"Andando e andando dentro de um pijama cheio de com um dedo aumentando o buraco do bolso, atravessei a biblioteca e encontrei a minha alma agachada, espiralando-se para baixo, entrando num globo colorido. O oceano ainda era o velho Atlântico, sempre o arrogante esverdeado, o branco impetuoso e cruel, agora mais quente do que o ar. Por outro lado, lá as bandeiras vermelhas proibiram nosso mergulho. Ninguém nadou. Uma delicadeza anárquica.

Uma latina bronzeada, dois trapos, amadurecida pelo sol, adormece solitária usando o braço como travesseiro. Sem comparação. Somente um grupo de meninos cabeceiam uma bola mantendo-a no ar, enquanto o povo passa fome no interior, faz greve e morre Américas infelizes, ah tristes tropiques! e todas as noites, arrancadas pela maré, as velas de macumba cortejam Yemanjá; alta, branca, a virgem-sereia do mar envolta em lírios brancos, no seu véu branco noturno, caminha sobre as águas.

'Estou caindo. Nossa Senhora, rogai por mim. Quero parar, mas perdi o pé de apoio no mapa, agora caio, caio, desvio, intenso, meus pés violam, nas ruas, as minhas palmas violentas.'"

Robert Lowell trad.: Marco Aurélio Cremasco

quarta-feira, julho 18, 2007

O impensado e o impensável

Sao_Paulo_by_ZedoCaixao-a sOoL!!
"Nossa percepção (ou aceitação) da realidade vai por patamares. Poderia dizer, "limites", que vão se alargando, conforme as exigências pessoais, sociais, históricas. Há fatos que embora sejam extravagantes, perversos e macabros, já entraram no universo dos possíveis. São vergonhosos, são eticamente imundos, alguns são esteticamente repulsivos, mas convivemos enojadamente com eles.

Quando nos deparamos com uma dessas situações pensamos ter já atingido o limite de nossa (des)humanidade. É como se estivéssemos num patamar extremo, depois do qual tudo é inviável, insuportável, inadimissível. Mas, de repente, rompe-se a barreira de nossas expectativas e atônitos somos forçados a admitir o inadimissível, a pensar o impensado, e a suportar o impensável.

Até há pouco ninguém havia pensado em jogar aviões cheios de apavorados e inocentes passageiros contra as torres do WTC, que recebiam diariamente umas 50 mil pessoas. Antes da década de 60 ninguém cogitava sequer que se pudesse sequestrar aviões. Avião era feito para voar e o medo era de que ele caisse sem mais nem menos, e não que pudesse ser até abatido pela própria força aérea de nosso país.

Pois tais coisas entraram no quadro das possibilidades. Tenho impressão que isto começou lá pelos anos 60. A princípio eram sequestros políticos, simples desvio de rota para pedido de asilo. Depois ocorreram sequestros com tiroteios e mortes a bordo. Ninguém pensava que se pudesse ir além disso. Mas fomos.

Se o impensado é aquilo é um não nomeado estoque depossibilidades, o impensável é o pesadelo que atonitamente não queremos admitir. Mas a realidade, abrindo patamares novos, sem nos consultar nos faz pensar o impensado e nos joga no impensável. Passamos admitir, suportar e conviver com coisas que às vezes a ficção de ontem nem sonhou.

Quem quiser pode recorrer aos exemplos clássicos. Os primeiros cristão conheceram na carne o impensado e o impensável quando começaram a definhar nas cruzes e a morrer no céu da boca das feras. Experimentaram o impensado e conviveram com o impensável aqueles que viram seus corpos arderem nas fogueiras da Inquisição.

Experimentaram o impensado e conviveram com o impensável os árabes que viram os cruzados cristãos devastarem suas cidades e comerem a carne de seus filhos como churrasco.

Perguntem aos judeus de ontem e ao palestino de hoje o que é o impensado e o impensável. Perguntem aos japoneses de Hiroshima e Nagasaki, aos milhões que Stalin e Mao Tse Tung exterminaram. Houve quem dissesse que a história é a história da liberdade. Houve quem dissesse isto de cabeça para baixo: - que a história é a história da repressão. Então, talvez se possa dizer, sumarizando, que a história é também a história da transgressão. De como limites vão sendo quebrados tanto no ímpeto da construção, quanto da destruição. A história vista como a história da sucessiva e ilimitada transgressão. Da transgressão que transgride a si mesma, sempre com novos ímpetos e absurdos.

No princípio brigava-se em terra firme com as garras e mãos, depois com pau e pedra, depois com espada, revólver e canhão, depois isto foi levado para os mares, depois para os ares até chegarmos nos perplexos tempos atuais em que globalizamos a guerra antes de globalizar a paz. E depois do WTC o imaginário começa a se adiantar para não ser colhido de surpresa. Os limites do terrorismo se expandiram e atônitos estamos redimensionando o impensado e o impensável. E a paranóia está no ar. Houve um tempo em que, americanamente feliz, o presidente achava que a Casa Branca só poderia ser atacada por mísseis e não por qualquer avião de passageiro, que decola do aeroporto a 10 minutos dali. Ele era feliz e não sabia.

Os limites se expandem. A história desborda.

Quanta distância entre o namoro antigamente, com aquelas mensagens em lencinhos, cartas, flertes no teatro, o culto da pureza e virgindade, e o de hoje? Quem poderia supor, há poucas décadas, que os grandes jornais que circulam entre as famílias tivessem natural e comercialmente em suas páginas, anúncios de prostituição masculina e feminina? E os programas pornoespetaculares de televisão? E a música, a literatura e as artes em geral? Trocaram ou não de patamar através de transgressões sucessivas?

Portanto, ética e esteticamente estamos cada vez mais convivendo com o impensável o impensado. Estranho são os seres vivos: tanto os pretensiosos seres humanos quanto os virus da gripe ou da aids, que vão se adaptando e criando novas resistências para sobreviverem. Então, nos dizemos:- "Não suporto mais. Isto já passou dos limites". E no dia seguinte suportamos mais coisas insuportáveis, alargamos os limites de nossa subserviência e o que era impensado e impensável ontem é a nossa (des)humana rotina hoje."

Affonso Romano de Sant’ Anna

segunda-feira, julho 16, 2007

Tudo tem tudo

love_story_by_aglayan_agac-a sOoL!!

D’onde o nada em tudo está,
o grande tudo sempre vem,
onde o nada tudo é já,
o grande tudo nada tem.

Para o nada poder dar,
é preciso o tudo vir,
como é bom tudo ficar,
como é triste nada ir.

D’onde a alma tudo clama,
com certeza, nada volta,
tudo tem acesa a chama,
onde o nada, em vão, se solta.

Onde o tudo cai na treva,
é onde o nada fica mudo, fraco,
o tudo nada leva, forte,
o nada leva tudo.


Roberto Armorizzi in: http://palavril.blogspot.com

O homem partido

timeless_loneliness_by_aglayan_agac-a sOoL!!
O homem partido
Segue fingindo unidade
Segue sentindo saudade

Meio homem / meio embaraço
Meio vida / meio contágio

Meio cidade / meio riacho
Meio rotina / meio anti-ácido

O homem partido
Segue em febril caminhada
Segue entre a cruz e a espada

Meio profeta / meio piada
Meio viola / meio guitarra

Meio vadio / meio de casa
Meio sentido / meio pirraça

O homem partido
Segue contando as migalhas
Segue esbanjando risada

Meio música / meio compasso
Meio canto / meio desabafo

Meio canção / meio cantada
Vezes tudo / vezes nada

Fabiano Parracho in: http://palavril.blogspot.com

quarta-feira, julho 11, 2007

Sente-se

angelssuicide__by_rache_engela sOoL!!
Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.
Você é um idiota.

Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então Repito: você é um idiota.

Um idiota.
I como Isabel;
D como Dinis;
outro I como Irene;
O como Orlando;
T como Teodoro;
A como Ana. Idiota.

Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada.
Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.

Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes.
Se você não é um I.
Claro, a você não lho dirão
Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.
É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o I negue que o é.

Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um I.
É francamente fatigante.
Como vê, preciso de dizer mais uma vez
Que você é um I.
E no entanto não é desinteressante para você saber o que você é
E no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exatamente as mesmas ideias do seu parceiro.
Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer
Que há outros I.

Você é um I.
De resto isso não é grave.
É assim que você consegue chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de I você não precisa de se preocupar com mais nada.

E você é I.
Formidável, não acha?
Você ainda não está ao corrente?
Quem há de então dizer-lhe?
O próprio Brecht acha que você é um I.
Por favor, Brecht, você que é um perito na matéria, dê a sua opinião.
Este homem é um I.
Nada mais.
Não basta tocar o disco uma só vez.

Bertolt Brecht

domingo, junho 24, 2007

Misericórida e Justiça...

Hanging_by_neon_lilith-a sOoL!!"'O acusado que vacilar nas respostas, afirmando ora uma ora outra coisa, vai para a tortura. O suspeito que tiver pelo menos uma testemunha contra si vai para a tortura. O acusado contra quem pesarem vários indícios veementes, mesmo se não houver testemunhas de acusação, vai para a tortura. Com muito mais razão vai para a tortura quem, além dos indícios, tiver contra si o depoimento de uma testemunha.'

Essas regras foram tiradas quase literalmente do "Manual dos Inquisidores", escrito pelo frade dominicano Nicolau Eymerich em 1376, revisto e ampliado pelo também dominicano Francisco de la Peña em 1578. Eymerich foi ele próprio inquisidor. De La Peña atualizou as instruções, compatibilizando as inquisições romana e espanhola. A tortura de acusados e suspeitos foi autorizada em 1252 pelo papa Inocêncio 4º. A partir de 1542 a Congregação do Santo Ofício, por meio de seus tribunais, centralizou o controle de todos os assuntos e procedimentos relativos à Inquisição. O lema do Santo Ofício era: "Misericórdia e Justiça".

A finalidade da tortura, como esclarece de La Peña, é menos provar um fato do que forçar o acusado a confessar a culpa. A confissão é o objetivo central da atividade inquisitória. Para chegar a ela, o inquisidor pode usar de truques, malícia, fraudes e, em último caso, tortura. O inquisidor dirá ao acusado ou suspeito que já sabe de tudo, mesmo que não saiba, fingirá ler documentos incriminadores, prometerá perdão (mesmo que não tenha autoridade para dá-lo), colocará junto ao acusado antigos cúmplices para levá-los à confissão pela fraude e, finalmente, se nada disso funcionar, avisará que terá que usar a tortura. Da tortura em processos por crime de heresia não escapava ninguém. Crianças de menos de 14 anos não eram torturadas: "Elas serão aterrorizadas e chicoteadas, mas não torturadas".

O manual não descreve os métodos de tortura porque os julga de conhecimento geral. Os principais eram o pau, as cordas, o cavalete, a polé (roda eriçada de farpas) e as brasas. Critica os inquisidores que inventam novas torturas e os que exageram em sua aplicação a ponto de matar as vítimas ou de fraturar seus membros e deixá-las doentes para sempre. O acusado deve sair inteiro da sessão de tortura, seja para ser libertado, seja para ser executado.

A Inquisição foi autorizada a funcionar em Portugal em 1536 e só foi extinta em 1821. No Brasil, governadores, ouvidores-gerais e bispos exerciam no início a função inquisitorial. Além disso, havia as visitações oficiais do tribunal português do Santo Ofício. A primeira chegou em 1591 e atuou na Bahia e em Pernambuco até 1595.

Outra visitação ocorreu em 1618, também na Bahia. A mais ilustre vítima da Inquisição no Brasil foi Antônio José da Silva, o Judeu, levado a Portugal e queimado em auto-de-fé. Juntando-se Portugal e colônias, calcula-se que cerca de 30 mil pessoas tenham sido julgadas, metade das quais foram para a fogueira.

A investigação e punição de crimes civis, não religiosos, eram reguladas pelas disposições do Livro 5º das "Ordenações Filipinas", publicadas pela primeira vez em 1603. Segundo o título 133 do Livro 5º, denominado "Dos Tormentos", se o julgador achasse que havia motivos suficientes para crer na culpa do acusado, "mandá-lo-á meter a tormento". O tormento seria repetido se o acusado confessasse sob tortura mas depois se negasse a ratificar o confessado. As penas contidas no Livro 5º incluíam a morte natural cruelmente para o crime de lesa-majestade (lembremo-nos de Tiradentes), a morte por fogo até virar pó, para sodomitas e incestuosos, o corte das mãos seguido de morte para assassinos, a queima com tenazes ardentes, seguida do corte das mãos e enforcamento para escravos que matassem seus senhores, os açoites etc. Entre as penas menores, uma das mais usadas era o degredo para a África e o Brasil. O Livro 5º vigorou no Brasil até a publicação do Código Criminal em 1830, muito da parte civil das "Ordenações" até a publicação do Código Civil em 1916.

The_One_I_Want_3_by_KarlLEmmett-a sOoL!!No mundo das relações privadas, sobretudo entre escravos e senhores, a imaginação de instrumentos e modalidades de tortura não conheceu limites: correntes, troncos, máscaras, palmatória, chicote, ferro de marcar a quente, castrações, amputações de membros, assamento em fornalhas, corpo untado de mel no formigueiro. A Marinha recorria à chibata para lanhar o lombo dos marinheiros até que a revolta de João Cândido e seus companheiros pôs fim à prática em 1910. O Exército usava a espada para dar surras nas praças. Como observou mais tarde um marinheiro contemporâneo de João Cândido, foram as chicotadas e lambadas que o fizeram entrar "na compreensão do que é ser cidadão brasileiro".

Não é preciso listar as inovações tecnológicas na tortura introduzidas pelas Forças Armadas durante a ditadura. Como diziam Eymerich e De la Peña, elas são de conhecimento geral. Também é de conhecimento geral a prática de tortura nas delegacias de polícia, colocada recentemente em evidência por reportagens sobre episódios policiais em vários Estados da federação. Quem fizesse uma história das delegacias de polícia desde 1841, quando a reforma do Código de Processo Criminal passou para os delegados as atribuições dos juízes de paz, mostraria facilmente que pouco mudou até hoje no que se refere aos métodos de extrair confissão de presos.

Esses métodos são exemplificados pela entrevista de um investigador da polícia civil do Pará publicada na Folha do último dia 18 de outubro (1999). Dizendo-se dos menos violentos entre os companheiros, o investigador informa que a palmatória e os choques elétricos são rotina nas delegacias e necessários para lidar com bandido que não quer confessar: "Trinta bolos de um lado, 20 do outro, se nunca apanhou da mãe, entrega tudo". "Palmatória é negócio normal", resume. Os métodos e a mentalidade do investigador de 1999 não diferiam daqueles usados pelos inquisidores desde o século 14. Tudo muito antigo, tudo muito nosso, tudo parte de nossa herança. A reação indignada à tortura só se verificou depois que as Forças Armadas a estenderam à classe média durante a ditadura. Preto e pobre sempre apanharam.

Novidade mesmo neste fim de século só o esquartejamento com moto-serra."

José Murilo de Carvalho - in: Folha online - Brasil 500 anos - 14/11/1999.

Procrusto, o esticador

Tangled_angels__II__by_temporary_peace.jpg-a sOoL!!
"Na localidade de Coridalos viviam muitos gigantes e homens crescidos normais. Disso decorria que os homens maiores, os gigantes, subjugavam os homens menores. Como Coridalos ficava na região da Ática, soprou até lá um hálito de razão vindo de Atenas, inspirando o gigante Polípemo, que era particularmente grande, a pensar. Durante várias semanas ele andou pensativo pela paisagem, refletindo sobre a desigualdade dos homens. Depois ele se nomeou Procrusto, o esticador, e construiu duas camas, uma para os gigantes e outra para os não-gigantes. Na cama para os não-gigantes ele colocava os gigantes e lhe cortava as pernas, de modo que eles coubessem na cama dos não-gigantes. Os não-gigantes, ele colocava na cama dos gigantes e os esticava, até que estes se adequassem à cama.

Palas Atena, de cujo hálito soprou o ar da razão até Coridalos, sentiu-se responsável e dirigiu-se a Procrusto. Ela lhe perguntou o que fazia.

"Estou agindo de acordo com a tua razão, deusa", respondeu o gigante, "cujo hálito colocou em movimento o meu pensar. Eu comecei a refletir sobre a desigualdade dos homens. Ela é injusta. Eu me dei conta pouco a pouco de que a justiça exige que todos os homens sejam iguais. Isto é razoável. Há em Coridalos giagantes e não-giagantes. sendo que os primeiros subjugam os segundos. Os homens são aqui desiguais de dois modos: em seu ser e em seu fazer. Isto não é razoável. Ora, se eu tornasse apenas os gigantes em não-gigantes, cortando-lhes as pernas, eu teria produzido com isso, todavia, uma nova injustiça: não-gigantes aleijados e não-gigantes, sendo que nesse caso estes últimos submeteriam os gigantes que se tornaram aleijados. Também irrazoável. Mas se eu agisse contra os não-gigantes, se eu os esticasse ao tamanho dos giagantes aleijados, eu teria produzido uma nova injustiça: tal como os gigantes aleijados, eles estão tão entregues aos gigantes quanto os não-gigantes. Outra vez irrazoável. Assim sendo, a meu ver, só há uma possibilidade de estabelecer a igualdade de todos os homens: os gigantes têm o direito de ser não-gigantes, e os não-gigantes de ser gigantes. Eu estou agindo de acordo com isso. Eu corto as pernas dos gigantes, eles se tornam tão pequenos quanto os não-gigantes. Quanto aos não-gigantes, eu os estico até ficarem do tamanho dos gigantes. Tal operação torna ambos iguais, pois através dela ambos se tornam aleijados. E se eles morrem em conseqüência da operação, eles também são iguais entre si, pois a morte torna todos iguais. Isto não é razoável?"

Balançando a cabeça negativamente, Palas Atena retornou a Atenas. A argumentação de Procrusto a fez perder as palavras. Foi a primeira vez que ela, como deusa, ouviu um discurso ideológico, e ela não encontrou nenhuma réplica. Procrusto, em virtude do siêncio da deusa, convenceu-se da correção de suas deduções, e voltou a torturar. Àqueles que torturava, ele sempre esclarecia que o fazia em nome da justiça: ora, um gigante tem o direito de ser um não-gigante e vice-versa.

A localidade de Coridalos tornou-se um inferno, repleta dos gritos dos martirizados, que podiam ser ouvidos em toda a Grécia. Os deuses, embaraçados, tapavam os ouvidos com as mãos. Eles também não encontravam nenhuma réplica à argumentação de Procrusto. As pragas, em especial, eram horríveis de se ouvir. Por isso, eles desligavam o som dos televisores - como deuses eles estavam tecnicamente bem à frente dos homens - para não mais ouvir as preces e os pedidos de socorro, bem como a gritaria e as maldições de Coridalos, razão pela qual eles nada mais ouviam do resto da terra. Todavia, isso fez com que eles não mais interviessem na história.

E assim, então, gigantes e não-gigantes amaldiçoavam Procrusto, enquanto ele os torturava, e os aleijados gigantes e não-gigantes o amaldiçoavam também. Saíam maldições até mesmo do túmulo daqueles que não haviam passado pelo procedimento bárbaro. Mas visto que Procrusto não compreendia porque ele estava sendo amaldiçoado - pois ele se sentia um benfeitor e era em geral um gigante muito sensível -, ele imaginou que o problema estava em seu método, adquirindo especialmente para as suas camas bons colchões. Desse modo, enquanto os coridalianos gritavam incessantemente e amaldiçoavam, ele tentava acalmar os torturados de um outro modo, já que eles não haviam sido iluminados pela razão divina como ele. Ele dizia para as suas vítimas que era heróico sofrer cada um em sua cama específica, fabricada de árvores que cresciam em todo o país - uma razão não menos irracional, porém, agora uma razão patriótica para as suas torturas.

E realmente, desta vez alguns gigantes e não-gigantes se colocavam como voluntários aqui. No geral, as maldições foram diminuindo com o tempo. Por encontrarem motivos para a ação de Procrusto, eles também encontravam consolo para tanto sofrimento. Houve até gigantes aleijados e não-gigantes aleijados que se convenceram de que haviam sido torturados para um futuro melhor. Por causa disso, pelo menos a chegada de Procrusto não era mais amaldiçoada, pois, com o tempo, as gigantes, através de uma adaptação evolucionária, passaram a dar à luz aleijados não-gigantes e as não-gigantes, a aleijados gigantes, de modo que Procrusto, no geral, não precisou mais torturar. Outros contentavam-se em morrer desse modo, desde que assim, esperavam eles, no futuro não houvesse mais nenhuma tortura.

Em virtude das razões apresentadas, os torturados eram levados a suportar a tortura, mesmo sendo ela irracional. Só alguns poucos gigantese não-gigantes torturados insistiam depois que a cama de tortura e a tortura fossem inutilizadas. Isso era o que Procrusto mais odiava. Ele ainda se revoltava com o fato de as pessoas não entenderem que ele não torturava por prazer, mas sim por um necessidade histórica. Tendo em vista que, a fim de não mais ouvir as queixas e gritarias, ele sempre imaginava motivos para torturar, ele acreditava que, com o tempo, a história só podia ter um sentido se ela progredisse, e se tal progresso consistisse em que ela fosse sempre mais justa, e ela só é mais justa se, a partir da desigualdade dos homens, ela se desenvolve em direção à igualdade deles.

Enquanto isso, o jovem Teseu caminhou de Tróia para Atenas, para lá se tornar rei, como filho de Egeu. Visto que ele concebia a política desde um ponto de vista prático novo, ele também veio a Coridalos. Lá ele ouviu e se admirou com a Ideologia de Procrusto.

"Tu precisas admitir que eu estou agindo de maneira razoável", disse Procrusto, orgulhoso, "a própria Palas Atenas não sabia me replicar".

"Tu ages tão irrazoavelmente quanto Pitiocampto, o podador de abetos, quando ele corta o andarilho em dois, e os enxerta nos troncos de dois abetos tortos e então os deixa crescer", respondeu Teseu. "A única diferença entre Pitiocampto e tu consiste em que ele não imaginou que devesse cortar em nome da justiça dos homens. Ele o fazia pelo puro prazer da crueldade".

"Pitiocampto é meu filho", disse Procrusto, pensativamente.

"Eu o matei", respondeu Teseu, tranqüilamente.

"Agiste corretamente", disse Procrusto, depois de longo pensar, "embora Pitiocampto fosse meu filho. Não é permitido matar pelo puro prazer da crueldade".

Assim, enquanto Procrusto queria cumprimentar Teseu agradecido, este jogou o gigante com tal força na pequena cama que a terra estremeceu.

"Seu louco", ele disse, e abateu Procrusto, que lhe encarava com os grande olhos, admirado. "Você foi retirado do hálito da razão muito cedo. As pessoas não são iguais, mesmo se não houvesse gigantes e não-gigantes, mas só gigantes, ou só não-gigantes. E porque as pessoas não são iguais, algumas maiores, outras menores, cada gigante tem o direito de ser um gigante, e cada não-gigante de ser um não-gigante. Ambos são iguais apenas perante a lei. Se tu tivesses introduzido esta lei, terias evitado que os gigantes dominassem os não-gigantes, ou, o que poderia bem ser o caso, que fossem os gigantes prejudicados pelos não-gigantes. Com isso, você teria poupado seus conterrâneos dessa tortura absurda".

E, assim, Teseu primeiramente cortou as pernas de Procrusto e, porque este já era especialmente um gigante grande, cortou-lhe também a cabeça, que ainda murumurava ao ser decepada:

"Eu só estava sendo justo". E então a cabeça ainda disse, enquanto ainda estava em cima do pescoço, antes que os grandes olhos se fechassem: "Eu jamais fizera mal algum aos homens".

Depois disso, Teseu caminhou de volta a Atenas para junto de seu pai Egeu. Infelizmente, Teseu era não apenas um herói; ele era também esquecido. Ele se esquecera, quando estava com Procrusto, que não matara apenas o seu filho Pitiocampto, mas sim também engravidara a sua neta, Periguna. Ele simplesmente se esqueceu de tudo. Seu lenço estava cheio de nós, era inútil. Ao regressar de Creta, ele esqueceu Ariadne na ilha de Naxo, que lhe salvara do labirinto, e assim esqueceu de levantar a vela branca, de modo que o seu pai atirou-se ao mar, porque ele pensou que Teseu fora morto pelo Minotauro no labirinto. Por causa disso, Teseu tornou-se rei. Infelizmente, ele também esquecera do seu inteligente discurso a Procrusto: não que ele fora particularmente um mal rei - ele está, de fato, bem colocado na escala dos reis -, mas abaixo dele nem todos eram iguais perante a lei, alguns mais iguais que outros. Isto porque Teseu também era esquecido como marido: seus amores colocaram tantas vezes os atenienses em apuros que eles reconheceram seu verdadeiro valor apenas gerações após a sua morte".

Albrecht Knaus Verlag - Tradução: Marco Antonio Franciotti e Celso Braida

A poesia humanitária

The_cemented_garden__by_Raccoon_with_a_cigarO Operário da Utopia
Apanhado em meio à noite,
jogado no chão da cela,
o corpo conhece, nú,
a primeira humilhação.
Outras virão: o soco,
o choque, a ameaça,
o urro na escuridão.
- Quantos volts
suporta o corpo
- em coação,
até que dele escorra o fel
da delação?

- O que procura o torturador
nas pedras do rim alheio
como vil minera/dor?
-O que ama esse ama/dor
da morte?
esse morcego suga/dor
sob os porões da corte?
esse joga/dor
do jogo bruto?
esse serviçal da morte
e cria/dor
- do luto?

O torturador se julga, e acaso o é,
um trabalha/dor diferente:
seu trabalho é destruir
o sonha/dor insistente
como o médico que resolvesse
matar de dor
- o paciente.
Mas sob a tortura
o que há de melhor no homem.
jamais se manifesta. Quando muito
podeis catar pelo chão
o pouco que dele resta.
Mas soltai-o em festa, ao sol
e vereis que a verdade
de seus gestos se irradia.
Livre
vestindo a pele do dia,
o torturado caminha
com seu corpo tatuado
de violência e poesia.
Mas ele não marcha só.
Apenas segue na frente
na direção da utopia.

Os Desaparecidos
De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluiam
- mal ligavam o tôrno do dia.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até a primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes esvaneciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, arefeitos, constatar no além,
como os pescadores partiam.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
- desapareciam.
Se fosse ao tempo da Bíblia, eu diria
que carros de fogo arrebatavam os mais puros
em mística euforia. Não era. É ironia.
E os que estavam perto, em pânico, fingiam
que não viam. Se abstraíam.
Continuavam seu baralho a conversar demências
com o ausente, como se ele estivesse ali sorrindo
com suas roupas e dentes.

Em toda família à mesa havia
uma cadeira vazia, a qual se dirigiam.
Servia-se comida fria ao extinguido parente
e isto alimentava ficções
- nas salas e mentes
enquanto no palácio, remorsos vivos boiavam
- na sopa do presidente.
As flores olhando a cena, não compreendiam.
Indagavam dos pássaros, que emudeciam.
As janelas das casas, mal podiam crer
- no que viam.
As pedras, no entanto,
gravavam os nomes dos fantasmas
pois sabiam que quando chegasse a hora
por serem pedras, falariam.

O desaparecido é como um rio:
- se tem nascente, tem foz.
Se teve corpo, tem ou terá voz.
Não há verme que em sua fome
roa totalmente um nome. O nome
habita as vísceras da fera
Como a vítima corrói o algoz.

E surgiam sinais precisos
de que os desaparecidos, cansados
de desaparecerem vivos
iam aparecer mesmo mortos
florescendo com seus corpos
a primavera de ossos.

Brotavam troncos de árvores,
rios, insetos e nuvens em cujo porte se viam
vestígios dos que sumiam.

Os desaparecidos, enfim,
amadureciam sua morte.

Desponta um dia uma tíbia
na crosta fria dos dias
e no subsolo da história
- coberto por duras botas,
faz-se amarga arqueologia.

A natureza, como a história,
segrega memória e vida
e cedo ou tarde desova
a verdade sobre a aurora.

Não há cova funda
que sepulte
- a rasa covardia.
Não há túmulo que oculte
os frutos da rebeldia.
Cai um dia em desgraça
a mais torpe ditadura
quando os vivos saem à praça
e os mortos da sepultura.

Affonso Romano de Sant'anna

sábado, junho 09, 2007

Um dia na vida do Brasilino e "quase" nada mudou...

"Não sei se você conhece o Brasilino!? Mas isso não importa...

Brasilino – é um homem qualquer, que mora num apartamento qualquer, numa cidade qualquer... Situemo-lo em Santos, por exemplo.

Brasilino, como todo o bom burguês, começa o dia acordando; sim, porque o operário, este, levanta-se ainda dormindo a fim de chegar a tempo ao serviço.

Brasilino acorda e aperta o botão da campainha à cabeceira da cama, campainha essa que soa na copa; porem soa, consumindo energia – energia que é da Light, e, assim, o Brasilino inicia o seu dia pagando dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas Brasilino não pensa nisso e começa o seu dia, feliz!

Abre-se a porta. É Marta, a criada, que entra com o café da manhã: café, leite, pão, manteiga, um pouco de geleia e o jornal – “O Estado de São Paulo”. – Brasilino, como todo o bom burguês, lê somente a boa imprensa – a chamada sadia.

Enquanto lê as notícias, toma a sua primeira refeição. Brasilino não sabe que o leite, que bebe, é originário de uma vaca que foi alimentada com farelo REFINAZIL, da “Refinações de Milho do Brazil” (Brasil com Z), que é americana, e que a farinha com a qual foi feito o pão é originária do “Moinho Santista”, que não é santista e sim inglês. Assim, para tomar o seu café da manhã, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas, Brasilino nem sabe disso... e toma o seu café, bem feliz!

Terminado o café, Brasilino acende o seu primeiro cigarro: Minister, ou Hollywood, um desses da “Cia. Souza Cruz”, que não é do Sr. Souza e muito menos do Sr. Cruz, mas, sim, da “British, American Tobacco Co.”, o “trust” anglo-americano do fumo. E assim, para fumar seu cigarrinho, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Mas Brasilino nem pensa nisso e saboreia seu cigarrinho, feliz... feliz...

Em seguida, Brasilino vai ao quarto de banho, fazer a sua toilette: acende o aquecedor de gás- gás que é da City e, portanto, do grupo Light, e, enquanto a água aquece, toma da escova de dentes, marca “TEK”, da “Johnson & Johnson do Brasil” (que é americana), e da pasta dentifrícia “KOLYNOS”, com clorofila, da “Whitehall Laboratories of New York” e, assim, para escovar os dentes, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO...

Mas Brasilino nem pensa nisso...

Brasilino não sabe bem o que é clorofila e está certo de que, quando entrou na farmácia e escolheu essa pasta, o fez livremente; ignora que sua vontade foi condicionada pelas custosas campanhas de promoção de vendas, feitas através da imprensa, do rádio e da televisão e que, da mesma forma como ele escolhe sua pasta de dentes, escolhe, também, o seu candidato à Presidência da República.

Em seguida, Brasilino vai fazer a barba: toma do pincel, feito com fios de Nylon, da “Rhodia” – que é francesa – enche-o com creme de barbear “Williams”, que é americano. Ensaboado o rosto, Brasilino toma seu aparelho “Gillette”, munido com lâminas “Gillette”, ambos da “Gillette Safety Razor do Brazil”, e, feliz, vai raspando a face, pois nem pensa que, para fazer sua barba, tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO...

Terminada a barba, Brasilino entra no banheiro, envolvendo o corpo com a espuma acariciadora de um desses sabonetes, “Lever” ou “Palmolive”, um desses cuja espuma acaricia o corpo de 9, entre 10 estrelas de Hollywood. E assim, até para tomar seu banho, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

Após o banho, Brasilino enxuga-se com uma toalha felpuda da “Fiação da Lapa”, que também não é da Lapa porque é Suíça e, a seguir, passa pelo corpo talco “Johnson”, da “Johnson & Johnson do Brasil”.

E... começa a vestir-se.

Acontece, então, uma tragédia! Cai um botão da camisa do Brasilino. Ele toca novamente a campainha, e Marta corre a socorrer o nosso herói, munindo-se de agulha e linha. Dentro de poucos instantes, ao ver Marta cortar a linha com os dentes, depois de preso o botão, Brasilino sente-se novamente feliz. Feliz porque ele não sabe que Marta, a criada, para pregar o botão, usou a linha marca “Corrente” da “Cia. Brasileira de Linhas para Coser”, que é inglesa e que, até para pregar um botão, Brasilino tem de pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

Já vestido, Brasilino despede-se de Marta, avisando que não virá almoçar nem jantar, pois irá a São Paulo, a negócios... – Sai, bate a porta, toma o elevador, que é “Schindler”, da “Schindler do Brasil”, que é suíça, e movido por força fornecida pela Light, e chega ao pavimento térreo. Dá bom dia ao zelador e toma o seu automóvel “Volkswagen”, fabricado pela “Volkswagen do Brasil”, que é alemã, rodando sobre pneus “Firestone”, da “Firestone do Brasil” que é americana, acionado por gasolina refinada pela “Petrobrás”, mas distribuída pela “Esso Standard do Brasil”, que é americana. Até para usar a gasolina, refinada pela Petrobrás, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO! Ele não sabe que os brasileiros têm capacidade para refinar o petróleo e produzir a gasolina, mas não a têm para a “difícil” tarefa de distribuí-la e que, para esse serviço – a simples distribuição – as companhias distribuidoras (Esso–Shell– Gulf–Texaco, etc.) ganham muito mais que a Petrobrás. Mas Brasilino ignora tudo isso... e Brasilino é feliz!

Pouco depois, Brasilino encontra-se na Via Anchieta, dirigindo-se a São Paulo. Ao passar por Cubatão e ao ver a Refinaria Presidente Bernardes, põe-se a pensar: “Porcaria essa Petrobrás! agora que a gasolina é nacional, custa cinco vezes mais.” – Sim, porque Brasilino não reflete que a gasolina custa, agora, muito mais, por um motivo muito simples: ao tempo em que a gasolina era importada, o dólar custava Cr$ 18,72 e, atualmente, para a importação de óleo bruto, custa Cr$ 200,00. – Não sabe, também, que o dólar está caro porque é escasso, e é escasso devido à procura, e a procura é muito grande, porque os dólares obtidos com a exportação brasileira, mal dão para fazer face às remessas de royalties e dividendos do CAPITAL ESTRANGEIRO.

A irritação do nosso herói, contudo, logo desaparece, pois a algumas centenas de metros à frente, Brasilino vê surgirem os dutos da Light e uma grande tabuleta com os seguintes dizeres: LIGHT AND POWER, a maior usina hidrelétrica da América do Sul – 1.200.000 KW. – Aí, Brasilino exulta e monologa com entusiasmo – “Isto sim! A Light! A Light! A Light que fez a grandeza de São Paulo.” Sim, porque Brasilino confunde Light com Energia. Ele não sabe que o que fez a grandeza de São Paulo não foi a Cia. Light e sim a Energia e que, se a Energia não pertencesse à Light, São Paulo seria dez vezes maior, ou o Brasil dez vezes menos miserável.

O interessante é que Brasilino nunca perguntou, a si mesmo, que seria da Inglaterra se não existissem as Lights pelo mundo.

Brasilino prossegue a viagem e, logo mais, atinge o altiplano, onde vê descortinar-se o panorama grandioso do progresso industrial, que ele julga ser do Brasil: “Volkswagen do Brasil” – “Mercedes Benz do Brasil” – “Willys Overland do Brasil” – “General Motors do Brasil” – “Rolls Royce do Brasil” – “Cia. Brasileira de Peças de Automóveis” – “Simca do Brasil” – “Plásticos do Brasil” e inúmeras outras “do Brasil” e “brasileiras”, mas todas elas ESTRANGEIRAS.

Brasilino, afinal, chega a São Paulo. Estaciona o seu carro em uma das ruas do centro e, a pé, alcança a Rua Líbero Badaró, para concluir um negócio. Brasilino recorda-se de que Líbero Badaró foi um homem que, ao ser assassinado, exclamou: “Morre um liberal, mas não morre a Liberdade!” E Brasilino conclui: “Que sujeito burro! Que interessa a Liberdade para um homem que já morreu!?”

Enquanto assim pensa, Brasilino chega aos escritórios da “Crescinco, Cia. de Investimentos”, pertencente ao Sr. Rockefeller. Brasilino sente-se orgulhoso de emprestar o seu dinheiro a um dos homens mais ricos do mundo, mas que, para financiar as suas indústrias, prefere usar o dinheiro dos próprios brasileiros, atraindo-os com a vantagem de juros de 2% ao mês e livre de imposto de renda. Brasilino não sabe que, entre o dia em que ele entregou o dinheiro e o dia em que esse mesmo dinheiro lhe foi devolvido, a desvalorização da moeda foi de 4% ao mês e assim , ele está menos rico, pois esse juro e mais os lucros da Cia. Investidora terão, forçosamente, de ser acrescentados ao custo das utilidades, saindo, consequentemente, da própria pele do Brasilino. Mas Brasilino não sabe disso e recebe o seu dinheiro e os juros, feliz!

Liquidado o negócio, Brasilino vai almoçar. – Entra num restaurante onde lhe é servido, como antepasto: frios da “Armour do Brasil”, que é americana, Margarina “Clay-Bon”, de “Anderson Clayton” que é americana, toma uma “Coca-Cola” e saboreia um prato de massa, preparado com farinha do “Moinho Paulista”, que é inglês, e, depois, come um filé com fritas, cuja carne foi fornecida pelo “Frigorífico Wilson” e as batatas foram fritas com óleo “Mazola”, da “Refinações de Milho Brazil” (Brazil com Z). Como sobremesa, comeu um pudim feito com “Maizena Duryea” também da “Refinações de Milho Brazil” e, assim, até para comer, Brasilino tem que pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO. Após o almoço, Brasilino passeia pela cidade, a fim de fazer hora para o cinema, gastando a sola do sapato com saltos de borracha “Good Year”, pagando, até para andar, dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

Brasilino entra no Cine Metro, onde passa a tarde, deliciando-se com um filme, que é americano e, para passar algumas horas distraídas, Brasilino paga dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

Ao sair do Cinema, Brasilino sente uma leve indisposição; entra numa farmácia e toma um “Alka-Seltzer”. E, assim, até para prevenir uma indigestão, Brasilino precisa pagar dividendos ao CAPITAL ESTRANGEIRO.

Toma novamente o seu carro e volta para Santos. Chegando à casa, faz novamente a sua toilette, liga o rádio de cabeceira, marca “G.E.” da “General Electric do Brasil”, e deita-se sobre um colchão de espuma de borracha “Foamex” da “Firestone do Brasil” e repousa a cabeça, sobre um travesseiro do mesmo material, dormindo, feliz, o sono da inocência.

Não sei porque, mas a história do Brasilino traz sempre, à mente, aquelas magníficas palavras do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito porque será deles o reino dos céus.”

Mas uma coisa jamais será do Brasilino: O REINO EM SUA PRÓPRIA TERRA.

Por isso, leitor, se alguém lhe disser que não existe imperialismo econômico, no Brasil, é porque está ENGANADO, ou porque ESTÁ ENGANANDO VOCÊ. "

Paulo Guilherme Martins - Santos, Outono de 1961

Destino mineral

LilyaCornelli-a sOoL!!
"Sou feita de uma carne perecível futuro de outra carne,
sem nenhuma eternidade.
A rocha é uma invencível parte da terra;
que ela me resuma no seu mesmo destino mineral.
A solidez ausente que tortura nossa matéria frágil,
no final se renderá:
serei de pedra dura.
Nunca mais chorarei nessa passagem de poesia.
Com nítida certeza,
recorto nas montanhas minha imagem
mais que raiz,
expressa na beleza.
Pela terra em que não me desfiguro,
hei de surgir um dia
em cristal puro."

Lupe Cotrim Garaude

Cascando

Love_by_ThierryV-a sOoL!!1

"Fosse apenas o desespero da ocasião
da descarga
de palavreado
perguntando se não será melhor
abortar que ser estéril
as horas tão pesadas
depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se
cedo de mais as garras
agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos
os velhos amores
órbitas vazias
cheias em tempos de olhos
como os teus sempre
todas perguntando se será melhor
cedo de mais do que nunca
com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez
nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas

2

A dizer outra vez se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama em que se sabe e não se sabe
em que se finge uma última vez mesmo para as últimas vezes
em que se diz se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei palavras rançosas
a resolver outra vez no coração
amor amor amor
pancada de velha batedeira pilando o sono inalterável das palavras
aterrorizado outra vez
de não amar de amar
e não seres tu de ser amado
e não ser por ti
de saber e não saber
e fingir e fingir eu e todos os outros
que te hão-de amar se te amarem

3

A não ser que te amem..."

Samuel Beckett - trad. Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, maio 29, 2007

A Rosa do gueto

"Em 21 de setembro de 1939, quase três semanas após o início da II Guerra Mundial, Reinhardt Heydrich, chefe da Polícia de Segurança do Terceiro Reich, enviou uma circular aos seus subordinados, com instruções para o que os nazistas chamavam de “Solução Final” – o extermínio da população judaica nos territórios ocupados.

Em 20 de janeiro de 1942, ao encerrar a mais importante conferência realizada no Departamento Central de Assuntos Raciais, Heydrich determinou que a “Solução Final” fosse apressada. No cumprimento das ordens, o “gauleiter” da Polônia, Hans Frank, recusou-se a fornecer alimentação às 450 mil pessoas confinadas no Gueto de Varsóvia, em um espaço que só comportava 150 mil.

Tinha 15 anos. Chamava-se Rosa, como muitas mulheres do seu povo. No Gueto, todos passavam fome e tinham medo. Rosa sentia-se só e aturdida. Quando olhava para cima, o universo era feito de sol, de azul, de nuvens brancas. Quando olhava para frente, o mesmo universo ficava cinzento e escorria pelo chão coberto de detritos, para terminar abruptamente junto ao muro. Foi ali que ela encontrou a roseira quase murcha e coberta de pó.

A partir de 22 de julho de 1942, os nazistas acionaram ao máximo a máquina de horrores. Em menos de um ano, somente 60 mil pessoas sobreviviam no Gueto. As demais tinham morrido de fome ou sido assassinadas quando procuravam pular o muro em busca de comida. E também enviadas às câmaras de gás.

Schmilek a viu ajoelhada junto ao muro. Pensou que ela enlouquecera.

“Rosa, que fazes? – perguntou aflito”.

Ela sorriu. Apontou a roseira.

“Estava quase morta. Acho que a salvei”, disse Rosa.

Schmilek respirou fundo e movimentou as mãos num cacoete de impaciência muito próprio dos homens de seu povo. Ficou só no gesto.

Aquele sorriso apagava o muro cinzento e os seios de Rosa arfavam, na esperança da vida ressurgente.

Em janeiro de 1943, Himmler fez uma visita-surpresa a Varsóvia. Não ficou satisfeito ao saber que lá ainda restavam 60 mil judeus. Suas ordens foram intransigentes: liquidação total até 15 de fevereiro.

Rosa o chamou alvoroçada:

“Schmilek!... a roseira!...”

Ele olhou a planta. Um pequeno botão despontava. Tentou falar, dizer o que estava acontecendo no Gueto, mas desistiu. Dentro dos olhos de Rosa só havia flores. Ela não se sentia mais só nem aturdida.Então Schmilek sorriu com muita dificuldade, a custo contendo as lágrimas.

Os alemães encontraram dificuldades para cumprir as ordens de Himmler. O desastre de Stalingrado e as contínuas retiradas do exército nazista da frente russa provocaram escassez de transportes. Era impossível retirar os judeus do Gueto em tão pouco tempo para conduzi-los aos campos de extermínio.

Só em março a operação pôde ser iniciada. Mas sobreveio novo obstáculo: os judeus começaram a resistir. Então, foi ordenada a destruição do Gueto e o massacre de seus habitantes.

Quanto o botão desabrochou, a rosa apareceu muito vermelha. Ela pediu:
“Colhe a rosa, Schmilek. Colhe e me oferece”.

In_keeping_what_you_feel_by_myownlittlecorner-a sOoL!!
Havia muito de céu nos olhos de Rosa. E também um apelo de amor.

Era o momento de contar a verdade.

“Rosa, nós vamos morrer”.

A dor brotou dos olhos da menina, apagando o céu e o apelo de amor. O silêncio desceu entre os dois.

Schmilek tomou-lhe a mão. Caminharam até onde havia uma fenda no muro.

“Olha”.

Rosa viu um soldado alemão. Ansiosa, buscou alguma coisa que o fizesse diferente. Só podia ver que o soldado era de carne e osso como eles.

“Ele não gosta de rosas?” perguntou, sem conseguir entender.

Schmilek aconchegou-a junto a si, procurando algo que a consolasse.

“Ele gosta de rosas”, murmurou.

“Por que, então?”

“Disseram-lhe que éramos maus. Que o odiávamos. Agora acha que somos maus e nos odeia”.

“Vamos falar com o soldado, Schmilek. Vamos mostrar a rosa. Dizer que é mentira. Que somos bons, que amamos a todos. Ele nos amará também. Todos seremos felizes”.

Schmilek sacudiu os ombros em desânimo. Falou quase sem inflexão na voz:

“Inútil. Não acreditaria”.

Rosa calou-se. Voltou para a roseira. Começou a acariciar a flor recém-desabrochada, como se a estivesse gerando em suas próprias entranhas. De repente, irrompeu em alegria:

“Vai nascer outro botão! Vai nascer outro botão, Schmilek! Preciso cuidar dele, também!”

Schmilek não resistiu mais. Os soluços o sacudiam. Não pôde evitar que as palavras lhe saíssem aos gritos:

“Mesmo sabendo que vamos morrer, insistes nesta idéia maluca de cuidar de rosas!?”

Rosa não se alterou. Pelo contrário, estava calma. E eternamente calma, colheu a flor e beijou suas pétalas.

“Só porque alguém não acredita em nosso amor, devemos esquecer as rosas?”

Em 19 de abril, o general nazista Stroop atacou o Gueto com blindados, artilharia, lança-chamas e dinamite.

Os judeus tinham somente alguns fuzis e duas metralhadoras. Assim mesmo, refugiados na rede de esgotos, lutaram até 16 de maio, quando foram vencidos pelo fogo que os nazistas atearam no Gueto.

Toda a resistência cessou ao ser dinamitada a grande sinagoga da rua Tlomacki.

Não podiam esperar mais.

“Vamos” convidou Schmilek, apontando o caminho dos esgotos.

Ela vacilava.

“E a minha rosa?”

“Traze-a contigo. Estaremos juntos, os três”.

“Não, a rosa precisa viver”.

E sem que Schmilek entendesse o gesto, jogou a flor por cima do muro. Depois foi a escuridão dos esgotos.

Hans Frank, gauleiter da Polônia, olhou feliz para a flor que estava em cima de sua mesa de trabalho. Um soldado a tinha encontrado, lhe dissera o general Stroop. Era tudo que restava do Gueto.

Frank afagou o rosto com a flor, para sentir a maciez das pétalas. De alma leve, flutuando em bem-aventurança, começou o relatório:

“O Gueto de Varsóvia deixou de existir...”.

... para que as rosas não passem e os tiranos não fiquem... "

Jayme Copstein

quinta-feira, maio 24, 2007

Nota de falecimento

"Brasília, um dia qualquer desta primeira década do século XXI – Pereceu hoje, na capital da República, Dona Política Democrática do Bem Comum, após lenta agonia. Causa mortis: falência múltipla de órgãos, após septicemia generalizada. Nesta etapa terminal, seu Executivo só executava a sangue frio, o Legislativo legislava apenas em causa própria, e o Judiciário tardava e falhava. A infecção no regime representativo era crônica. Dona Política, alguns anos antes de morrer, já exalava, em seu bem equipado quarto de moribunda, um cheiro insuportável. As despesas com a longa internação e o sepultamento foram pagos por grandes conglomerados privados, a maioria do setor financeiro.

Ao velório de Dona Política compareceram altas autoridades do país. O Presidente da República deu animada entrevista para correspondentes estrangeiros, dizendo conhecer a indigitada desde os tempos da Grécia Antiga, quando era considerada amiga fiel de todos – à exceção dos escravos, das mulheres e dos estrangeiros.

Senadores de sábias cabeças brancas, contristados, confabulavam no velório. O momento de nojo (como eles continuam a denominar o luto) fez com que notórios adversários de ocasião, que tinham protagonizado recente duelo para provar quem era mais canalha, ficassem lado a lado e até trocassem algumas idéias.

Alguns representantes da esquerda também compareceram. As lágrimas sinceras pelo passamento de Dona Política Democrática não duraram muito: logo foram secando e a perplexidade deu lugar a um inusitado conformismo, na linha do “a vida é assim mesmo” e “Deus sabe o que faz”. “O jeito é seguir em frente e nos acostumarmos com sua ausência”, disse um deputado que fora líder estudantil há 30 anos, com seu corpo 30 quilos mais pesado.

Nos_Da_Cariad_by_Foxfires-a sOoL!!

Coroas de flores abarrotavam a capela. As mais vistosas eram as assinadas pelo FMI e pelo Banco Mundial. O Presidente dos EUA enviou mensagem, afirmando saber o que os brasileiros estavam sentindo, pois seu país já vivera essa perda há muito, levando o povo norte-americano a reagir com o consumo compulsivo de hambúgueres, coca-colas, drogas, sexo e credit card. Comunicadores de elevada audiência, através da TV, explicavam que a morte era esperada, pois Dona Política, idosa e “jurássica como a idéia de Nação”, já não cumpria função relevante no mundo globalizado do capital volátil, dos fluxos especulativos sem fronteira e dos internautas egocentrados no ciberespaço.

O sepultamento será no jazigo perpétuo da família Camaleão (aquela oligarquia pluriétnica, que muda de cor conforme a situação, e sub-ética, com moral de ocasião), no poder há 500 anos.

A nota dissonante das exéquias foi a invasão da capela, quando a tarde caía, por um menino maltrapilho, que circulou entre os presentes assoviando a música “O que será”, de Chico Buarque, para constrangimento geral. Retirado por seguranças, ele sumiu na noite que chegava.

No livro de condolências encontrou-se, sem assinatura, uma estranha mensagem: “Há um erro de pessoa aqui. Esta Política que já vai tarde não é a Democrática e do Bem Comum. É uma contrafação dela, nascida no ventre neoliberal da cultura narcísica, da desconstituição da pessoa como agente da História. Quem morreu, sem merecer choro nem vela, foi a política despolitizada da delegação, da desinformação, da submissão do povo como massa de manobra dos bandidos de colarinho branco. Dona Política Democrática do Bem Comum está viva e foi vista, cheia de energia, num acampamento dos sem terra, na boa luta sindical, nas comunidades pobres que se organizam, nas escolas da educação popular, na solidariedade com os desvalidos, naqueles que mantém a utopia comum de novas e fraternas relações humanas e sociais”.

Chico Alencar

Provocações

Big_Bad_Apple_by_Mrichston-a sOoL!!"A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida. Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça. Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas.

Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme. Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava. Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça. Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa. Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida.

Se animou.

Se mobilizou.

Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação. Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim.

Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

VIOLÊNCIA NÃO"

Luis Fernando Veríssimo

No mundo há muitas armadilhas

Hope_by_frixin-a sOoL!!"No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo,
já que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las."

Ferreira Gullar

O que os olhos não vêem

Aimee_in_Exile_by_ThisYearsGirl-a a sOoL!!"Havia uma vez um rei num reino muito distante, que vivia em seu paláci ocom toda a corte reinante. Reinar pra ele era fácil, ele gostava bastante. Mas um dia, coisa estranha!Como foi que aconteceu? Com tristeza do seu povo nosso rei adoeceu. De uma doença esquisita,toda gente, muito aflita,de repente percebeu...

Pessoas grandes e fortes o rei enxergava bem. Mas se fossem pequeninas, e se falassem baixinho,o rei não via ninguém. Por isso, seus funcionários tinham de ser escolhidos entre os grandes e falantes, sempre muito bem nutridos. Que tivessem muita força, e que fossem bem nascidos. E assim, quem fosse pequeno,da voz fraca, mal vestido, não conseguia ser visto. E nunca, nunca era ouvido. O rei não fazia nada contra tal situação; pois nem mesmo acreditava nessa modificação. E se não via os pequenos e sua voz não escutava, por mais que eles reclamassem o rei nem mesmo notava. E o pior é que a doença num instante se espalhou.

Quem vivia junto ao rei logo a doença pegou. E os ministros e os soldados, funcionários e agregados, toda essa gente cegou. De uma cegueira terrível,que até parecia incrível de um vivente acreditar, que os mesmos olhos que viam pessoas grandes e fortes, as pessoas pequeninas não podiam enxergar. E se, no meio do povo, nascia algum grandalhão, era logo convidado para ser o assistente de algum grande figurão. Ou senão, pra ter patente de tenente ou capitão. E logo que ele chegava, no palácio se instalava; e a doença, bem depressa,no tal grandalhão pegava.

Todas aquelas pessoas,com quem ele convivia, que ele tão bem enxergava, cuja voz tão bem ouvia, como num encantamento, ele agora não tomavao menor conhecimento... Seria até engraçado se não fosse muito triste; como tanta coisa estranha que por esse mundo existe. E o povo foi desprezado, pouco a pouco, lentamente. Enquanto que o próprio rei vivia muito contente; pois o que os olhos não vêem, nosso coração não sente. E o povo foi percebendo que estava sendo esquecido; que trabalhava bastante, mas que nunca era atendido; que por mais que se esforçasse não era reconhecido.

Cada pessoa do povo foi chegando à convicção, que eles mesmos é que tinham que encontrar a solução pra terminar a tragédia. Pois quem monta na garupa não pega nunca na rédea! Eles então se juntaram, discutiram, pelejaram, e chegaram à conclusão que, se a voz de um era fraca, juntando as vozes de todos mais parecia um trovão.

E se todos, tão pequenos, fizessem pernas de pau, então ficariam grandes, e no palácio real seriam logo avistados, ouviriam os seus brados, seria como um sinal. E todos juntos, unidos, fazendo muito alarido seguiram pra capital. Agora, todos bem altos nas suas pernas de pau.

Enquanto isso, nosso rei continuava contente. Pois o que os olhos não vêem nosso coração não sente... Mas de repente, que coisa! Que ruído tão possante! Uma voz tão alta assim só pode ser um gigante!

Balance_by_cryingsorceress- Vamos olhar na muralha.
- Ai, São Sinfrônio, me valha neste momento terrível! Que coisa tão grande é esta que parece uma floresta? Mas que multidão incrível!

E os barões e os cavaleiros, ministros e camareiros, damas, valetes e o rei tremiam como geléia, daquela grande assembléia, como eu nunca imaginei! E os grandões, antes tão fortes, que pareciam suportes da própria casa real; agora tinham xiliques e cheios de tremeliques fugiam da capital.

O povo estava espantado pois nunca tinha pensado em causar tal confusão, só queriam ser ouvidos,ser vistos e recebidos sem maior complicação. E agora os nobres fugiam, apavorados corriam de medo daquela gente. E o rei corria na frente, dizendo que desistia de seus poderes reais. Se governar era aquilo ele não queria mais!

Eu vou parar por aqui a história... a que estou contando. O que se seguiu depois cada um vá inventando. Se apareceu novo rei ou se o povo está mandando, na verdade não faz mal. Que todos naquele reino guardam muito bem guardadas as suas pernas de pau. Pois temem que seu governo possa cegar de repente. E eles sabem muito bem que quando os olhos não vêem nosso coração não sente."

Ruth Rocha

terça-feira, maio 22, 2007

A ampulheta que vira e revira

"(...) Ao cabo de sete dias, soergueu-se, Zaratustra em seu leito, apanhou uma maçanilha, cheirou-a e achou-lhe grato o cheiro. Então julgaram seus animais que era chegado o tempo de falar com ele.

"Ó, Zaratustra", disseram, "já faz sete dias que estás deitado, com olhos pesados; não queres, finalmente, pôr-te outra vez de pé?

Sai desta caverna; o mundo está à tua espera como um jardim. Brinca o vento com intensos perfumes, que te procuram; e todos os córregos gostariam de seguir os teus passos.

Por ti, que ficaste sozinho sete dias, anseiam todas as coisas. Sai desta caverna! Todas as coisas querem ser teus médicos!

Veio a ti algum novo conhecimento, amargo, doloroso? Como massa fermentada, estiveste deitado, a tua alma crescia e inchava, saindo fora de todas as bordas."

"Ó, meus animais", respondeu Zaratustra, "continuai a tagarelar e deixai que vos escute. Traz-me tamanho conforto ouvir-vos tagarelar; onde se tagarela, já o mundo é ali, para mim, corno um jardim.

Grendel-a sOoL!!Como é agradável que existam palavras e sons; não são, palavras e sons, arco-íris e falsas pontes entre coisas eternamente separadas?

Toda a alma tem o seu mundo, diferente dos outros; para toda a alma, qualquer outra alma é um transmundo.

É entre as mais semelhantes que mente melhor a aparência; pois a brecha menor é a mais difícil de transpor.

Para mim - como haveria algo exterior a mim? Não existe o exterior! Mas esquecemos isso a cada palavra; como é agradável que o esqueçamos.

Não foram as coisas presenteadas com nomes e sons, para que o homem se recreie com elas? Falar é uma bela doidice: com ela o homem dança sobre todas as coisas.

Quão grata é toda a fala e toda a mentira dos sons! Com sons dança o nosso amor em coloridos arco-íris."

"Ó, Zaratustra", disseram, então, os animais, "para os que pensam como nós, as próprias coisas dançam: vêm e dão-se a mão e riem e fogem - e voltam.

Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser.

Tudo se desfaz, tudo é refeito; eternamente constrói-se a mesma casa do ser. Tudo se separa, tudo volta a se encontrar; eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser.

Em cada instante começa o ser; em torno de todo o ‘aqui’ rola a bola ‘acolá’. O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade."

"Ó, farsantes e realejos!", retrucou Zaratustra, sorrindo de novo; "como conheceis bem o que devia cumprir-se em sete dias (...)."

Friedrich Nietzsche

sábado, maio 19, 2007

O Menino Flor

Paeonia_Neecii_by_ZeNeec-a sOoL!!
"Era uma vez um menininho bastante pequeno
que contrastava com a escola bastante grande.
Quando o menininho descobriu que podia ir à sua sala
caminhando pela porta da rua, ficou feliz.
A escola não parecia tão grande quanto antes.
Uma manhã, a professora disse:
- Hoje nós iremos fazer um desenho.
"Que bom!" - pensou o menininho.
Ele gostava de desenhar
leões, tigres, galinhas, vacas, trens e barcos...
Pegou a sua caixa de lápis-de-cor e começou a desenhar.
A professora então disse:
- Esperem, ainda não é hora de começar!
Ela esperou até que todos estivessem prontos.
- Agora, disse a professora, nós iremos desenhar flores.
E o menininho começou a desenhar bonitas flores
com seus lápis rosa, laranja e azul.
A professora disse:
- Esperem! Vou mostrar como fazer.

E a flor era vermelha com caule verde

- Assim, disse a professora, agora vocês podem começar.
O menininho olhou para a flor da professora,
então olhou para a sua flor.
Gostou mais da sua flor, mas não podia dizer isso...
Virou o papel e desenhou uma flor igual a da professora.

Era vermelha com caule verde.

Num outro dia, quando o menininho estava em aula ao ar livre,
a professora disse:
- Hoje nós iremos fazer alguma coisa com o barro.
- "Que bom!". Pensou o menininho.
Ele gostava de trabalhar com barro.
Podia fazer com ele todos os tipos de coisas:
elefantes, camundongos, carros e caminhões.
Começou a juntar e amassar a sua bola de barro.
Então, a professora disse:
- Esperem! Não é hora de começar!
Ela esperou até que todos estivessem prontos.
- Agora, disse a professora, nós iremos fazer um prato.
"Que bom!" - pensou o menininho.
Ele gostava de fazer pratos de todas as formas e tamanhos.

A professora disse:
- Esperem! Vou mostrar como se faz.
Assim, agora vocês podem começar.
E ela mostrou a todos como fazer um prato fundo.
O menininho olhou para o prato da professora,
olhou para o próprio prato e gostou mais do seu.
Ele gostava mais do seu prato do que o da sua professora.
Mas ele não podia dizer isso.
Ele amassou o seu barro numa grande bola novamente
e fez um prato fundo, igual ao da professora.

E muito cedo o menininho aprendeu a esperar
e a olhar e a fazer as coisas exatamente como a professora.
E muito cedo ele não fazia mais coisas por si próprio.
Então aconteceu que o menininho e sua família se mudaram
para outra casa, em outra cidade
e o menininho teve que ir para outra escola.
Essa escola era ainda maior que a primeira.
Ele tinha que subir grandes degraus até sua sala.

E no primeiro dia ele estava lá quando a professora disse:
- Hoje, nós vamos fazer um desenho.
"Que bom !" - pensou o menininho,
e esperou que a professora dissesse o que e como fazer.
Mas a professora não disse nada,
apenas andava pela sala.
Então foi até o menininho e disse:
- Você não quer desenhar ?
- Sim, disse o menininho, e o que é que nós vamos fazer?
- Eu não sei, até que você o faça, disse a professora.

- Como eu posso fazê-lo?
Perguntou o menininho.
- Da maneira que você gosta, disse a professora.
- E de que cor?
Perguntou o menininho.
- Se todo mundo fizer o mesmo desenho
e usar as mesmas cores,
como eu posso saber quem fez o quê?
E qual é o desenho de cada um?
- Eu não sei . . .
E então o menininho pegou o seu lápis
e começou a desenhar

uma flor vermelha com o caule verde."

Helen E. Buckley

sábado, maio 12, 2007

Labirinto em diagonal

LilyaCornelli-a sOoL!!

" (...) O curso da vida não é certamente a nossa obra exclusiva, mas o produto de dois fatores, a saber, a série dos acontecimentos e a das nossas decisões. Séries que sempre interagem e se modificam reciprocamente.

Além disso, há o fato de que, em ambas, o nosso horizonte é sempre bastante limitado, na medida em que não podemos predizer com muita antecipação as nossas decisões e muito menos prever os acontecimentos; na verdade, de ambos conhecemos com justeza apenas os acontecimentos e decisões atuais.

Sendo assim, enquanto o nosso alvo está longe, não podemos dirigir-nos diretamente para ele, mas só por aproximações e conjecturas, amiúde tendo de bordejar. Tudo o que conseguimos é tomar decisões sempre segundo a medida das circunstâncias presentes, na esperança de fazê-lo bem, para desse modo nos aproximarmos do alvo principal. Na maioria das vezes, portanto, os acontecimentos e as nossas intenções básicas são comparáveis a duas forças que agem em direções opostas, sendo a diagonal resultante o curso da nossa vida."

Arthur Schopenhauer

Por mais que te cante o corpo


Por mais que te cante o corpo lembra-te:

a vida é esse pássaro enlouquecido

que morre de encontro aos espelhos na ânsia de um nome.

Lembra-te: é preciso pagar os juros da dor.

Virão os frutos de todas as estações

e a música mínima que habita a folhagem,

soletrando, folha a folha, como um labirinto,

a escrita interminável nas pedras, nas árvores,

a escrita do mundo, multiplicando-se.

E vislumbrarás, entre as tuas noites,

as pequenas, humanas glórias,

o que poderá ter sido, nesse naufrágio da luz,

continuarás a alimentar esse pássaro

que floresce na sua noite:

o exílio, a alma que se esmaga na superfície dos espelhos,

eternamente devorada pelo tempo.



Maria Joao Cantinho

sexta-feira, maio 11, 2007

O Navio Negreiro - cantos IV, V, VI



GavinHellier-a sOoL!!(...)

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

(...)

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?
Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão...

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
...Adeus, ó choça do monte,
...Adeus, palmeiras da fonte!...
...Adeus, amores... adeus!...

Corbis-a sOoL!!

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves