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Música

"Não é bom para o homem estar só mas ele está só, mesmo assim, ele espera e está só, ele adia e está só, só ele sabe que mesmo adiando chegará."
Natan Zach

domingo, dezembro 17, 2006

Um Natal bem Brasileiro.

SebastiãoSalgado-criançayanomami
"A beleza do Natal castiçamente brasileiro está em ser uma consagração de Deus Menino ou de Menino Jesus. Em contraste com o Natal europeu, cuja figura central é a de um bom e risonho Velho. O Deus Menino irradia esperança. Ilumina futuros. Dá confiança no que está para vir. Papai Noel tornou-se um mito grandemente comercializado e, ao mesmo tempo, a serviço de indústrias produtoras de artigos para presentes. ... O Natal é um desses aspectos, quer através de cordial e até fraterna troca de presentes entre adultos, quer das árvores de Natal com presentes para adultos e crianças. E com Papai Noel, de barbas brancas e metido em grosso casaco vermelho a resguardá-lo de neves, de frios não brasileiros, a representar, para gente dos trópicos brasileiros e de outras terras tropicais, uma navegação de verdes e dos verões como os do Brasil. O Menino Deus é um mito romântico. E sobretudo, um mito ecológico. Trata-se de Menino Deus nascido entre verdes quase tropicais. Quase brasileiros. Menino que teria crescido em vegetação semelhante à brasileira. É, portanto, figura muito mais nossa que o, aliás, bom velhote. Muito mais capaz de nos animar, aos brasileiros, meninos e adultos, de esperanças e alegrias. De regosijos em torno de sua figura. Regosijos em torno de seu presépio. Pastoris, cantos e danças em seu louvor."

Gilberto Freyre

sábado, outubro 28, 2006

Chão de palavras

Little_Fairy_by_DexterousDamsel-a sOoL!!A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.

A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa.

A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.

A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.

Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, outubro 24, 2006

Há Noites

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que leva-nos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

sun_rose_by_avenescent-a sOoL!!
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
A mais longínqua onda do seu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exatidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia

sábado, outubro 14, 2006

Construção da Noite

Lifes_like_a_Tree_by_x_horizon-a sOoL!!"No casulo há um homem
Mas o fundo é outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é outro lado.

É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é outro lado.

É a treva
Onde o homem foi fechado
Mas o fundo é outro lado.

É o silêncio
De um homem soterrado.

Mas o fundo é outro lado
Mas o fundo é outro lado.

É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.

E mistura-se à terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.

Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
É o outro lado
Que começa. "

Carlos Nejar in: http://ideias-soltas.weblog.com.pt

domingo, outubro 01, 2006

Hino dos Comedidos

stonewingsstillfly-a sOoL!!

"Não me agradam esse homens
bem fracionados no tempo,
cedendo-se amavelmente
em todas as ocasiões
e mais também
não me agradam
os partidários tão vários,
de toda moderação.

Vou passando bem distante
desses homens comedidos.
deses homens moderados.

Antônio guarda seu vinho
muito mais de vinte anos
para bebê-lo mais velho...
Clara não estréia o vestido
quer outra oportunidade.

Os noivos em castidade
bem além de doze anos
ainda apregoam o amor.

Os homens de ferro
hoje só sabem anunciar
uma mensagem de espera.

Aguarda a felicidade,
vê o momento oportuno,
não penses nunca em amor...
Nem sejas tão ansioso,
resiste à melhor viagem
desconhece a emoção.

O hino dos comedidos
de todos bem fracionados
a humanidade invadiu.

Desejam oportuníssimos,
sempre expelindo relógios
aguardam os melhores instantes
subdivididos em prazos,
doutrinam sincronizados,
sofrendo convencionais
apenas grandes tristezas
creditadas nos jornais.

Eu? Eu já sou diferente.
Não sei viver minha vida
entoada nesse hino
esterelizada em prazos
de regras universais.

Não me situo na espera
e por profissão de fé,
acredito em circunstância,
acredito em vida intensa,
acredito que se sofra,
mesmo muito, por amor.

Adeus homens moderados,
adeus que sou diferente.
Compreendo a mulher
que rasga as vestes
em grande dor
e sinto imensa ternura
pelo homem desesperado."

Lupe Cotrin

Biografia

Imaginary_by_TheTragicTruth_Of_Me-a sOoL!!

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

Miguel Torga

segunda-feira, setembro 25, 2006

O Sono das Águas

brilliantly__by___elle__.0-a sOoL!!
"Há uma hora certa, no meio da noite, uma hora morta, em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio,
na lagoa,
no açude,
no brejão,
nos olhos dágua,
nos grotões fundos.

E quem ficar acordado, na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira parar a queda
e o choro, que a água foi dormir...

Águas claras,
barrentas,
sonolentas,
todas vão cochilar.

Dormem gotas,
caudais,
seivas das plantas,
fios brancos,
torrentes.

O orvalho sonha nas placas da folhagem.
E adormece até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora de torpor

líquido
e inocente.

Muitos hão de estar vigiando,
e chorando,
a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono..."

Guimarães Rosa
'

domingo, setembro 24, 2006

Marcha

Colors_In_2_by_Nachkebia-a sOoL!!"As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes
nem fontes.

Apenas o sol redondo
e alguma esmola do vento
quebraram as formas do sono
com a idéia do
movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos
pelo fundo.

As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida
aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia
e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras,
águas,
pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda,
amarga
como qualquer fruto
agreste.

Mesmo assim amarga
é tudo que tenho
entre o sol e o vento:

meu vestido,
minha música,
meu sonho
e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos
a felicidade.

Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá
contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.

O horizonte corta a vida
isento de tudo,
isento...

Não há lágrima nem grito:
apenas
consentimento."

Cecília Meireles

sexta-feira, setembro 22, 2006

Os portadores de sonhos

"Em todas as profecias está prevista a destruição do mundo. Todas as profecias dizem que o homem criará sua própria destruição. Porem os séculos e a vida que sempre se renovam criariam também uma geração de amantes e sonhadores; homens e mulheres que não sonharam com a destruição do mundo, e sim com a construção do mundo das mariposas e dos rouxinóis. Desde pequeninos vinham marcados pelo amor. Por trás de sua aparência cotidiana guardavam a ternura e o sol da meia-noite. Suas mães os encontraram chorando por um pássaro morto e mais tarde muitos foram encontrados mortos como pássaros.

Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos por um inverno de carícias. Foi assim que proliferaram no mundo os portadores de sonhos, atacados ferozmente pelos portadores de profecias que falavam de catástrofes.

Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de utopias, disseram que suas palavras eram velhas - e de fato eram porque a memória do paraíso é antiga no coração do homem - os acumuladores de riquezas os temiam e lançavam seus exércitos contra eles, mas os portadores de sonhos faziam amor todas as noites e do seu ventre brotava a semente que não somente portava sonhos mas que os multiplicavam e os fazia correr e falar. E assim o mundo criou de novo a sua vida da mesma forma que havia criado os que inventaram a maneira de apagar o sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos climas gélidos e nos climas quentes pareciam brotar por geração espontânea. Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas torrenciais tiveram a ver com isso, a verdade é que, como formiguinhas operárias estes espécimes não deixavam de sonhar e construir mundos formosos, mundo de irmãos, de homens e mulheres que se chamavam companheiros, que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se diante da morte, se curavam e se cuidavam entre si, se ajudavam na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento e de suas claras percepções e de lá partiam os que os haviam conhecido portando sonhos, sonhando com novas profecias que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis, onde o mundo não haveria de findar na hecatombe mas onde os cientistas desenhariam fontes, jardins, brinquedos surpreendentes para fazer mais gostosa a felicidade do homem.

São perigosos - imprimiam as grandes rotativas
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos
São perigosos - murmuravam os artífices da guerra

Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas
Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos
Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.

Os portadores de sonhos conheciam seu poder e porsso nada achavam de estranho E sabiam também que a vida os havia criado para proteger-se da morte que as profecias anunciam E por isso defendiam sua vida até a morte. E por isso cultivavam os jardins de sonhos e os exportavam com grandes laços coloridos e os profetas obscuros passavam noites e dias inteiros vigiando as passagens e os caminhos procurando essas cargas perigosas que nunca conseguiram encontrar porque quem não tem olhos para sonhar não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.

E no mundo sucedeu um grande tráfico de sonhos que os traficantes da morte não podiam estancar; em todas as partes há pacotes com laços de fita que só esta nova raça de homens pode ver e a semente destes sonhos não se pode detectar porque está envolta em corações vermelhos ou em amplos vestidos de maternidade onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres que os carregam.

Dizem que a terra depois de os haver parido desencadeou um céu de arco-íris e soprou de fecundidade as raízes das árvores. Nós sabemos que os vimos. Sabemos que a vida os criou para proteger-se da morte que as profecias anunciam."

Gioconda Belli

"A chama de uma vela" (fragmento)

"(...)

A lâmpada vela,

e portanto vigia.

Quanto mais estreito é o fio de luz,

mais penetrante é a vigilância.

(...)

A lâmpada é um signo de uma grande espera.

Pela luz da casa distante,

a casa vê,

vela,

vigia,

espera.

(...)

Por sua luz,

a casa é humana.

Ela vê como um homem.

É um olho aberto para a noite.

(...)"

Painting_of_Light_by_Andross01-a sOoL!!

"Assim se fala da lâmpada como se poderia falar da luz que alumia os caminhos e que nos fascina, a luz de uma vela, tendo esta também um duplo sentido, o de alumiar e de aquecer. O que nos fascinará tanto numa simples vela?!

O seu lado romântico, que herdamos dos nossos antepassados oitocentistas? A cor vibrante e dilacerante que encerra? O perigo que existe ao acendê-la e torná-la chama? O simples derreter da cera em seu redor que cria montanhas e estalactites que, de forma natural, não podemos criar? O alumiar do caminho? Uma forma de obter luz natural? O misticismo da vela...!!!!

Que vejo eu, tu e todos numa vela? É um fascinio. E a luz acessa,... num quarto escuro, ... em noite cerrada ..., fala-nos de solidão. Remete-nos para o nosso passado de histórias encantadas. Transporta-nos para um outro mundo, o da imaginação e olhando lá bem do fundo ficamos à espera que o sonhador noturno, ou desesperado diurno, apague a luz e vá descansar num sono profundo. (...)"

Gaston Bachelard

quinta-feira, setembro 21, 2006

A implosão da verdade

Smoke_Dance_2_by_EvilxElf-a sOoL!!

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes.
Alegremente mentem.
Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem.
Mentem e calam.
Mas suas frases falam.
E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver a verdade
em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade pela mentira,
nem à democracia pela ditadura.

Evidente/mente a crer nos que me mentem

uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo permanente.

Mentem.
Mentem caricatural- mente.

Mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente,
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem clara/mente como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o linho.
Mentem com a cara limpa e nas mãos o sangue quente.
Mentem ardente/mente como um doente em seus instantes de febre.
Mentem fabulosa/mente
como o caçador que quer passar gato por lebre.
E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador com a armadilha.

E assim cada qual mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente,
mente,
mente.

E de tanto mentir tão brava/mente
constróem um país de mentira
— diária/mente.

Mentem no passado.

E no presente passam a mentira a limpo.
E no futuro mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar em torno à terra medieval/mente.

Por isto, desta vez, não é Galileu quem mente,
mas o tribunal que o julga herege/mente.

Mentem como se Colombo partindo do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria, viajando pelo avesso,
iludindo a corrente em curso,
transformando a história do país
num acidente de percurso.

Tanta mentira assim industriada me faz partir para o deserto
penitente/mente,
ou me exilar com Mozart musical/mente
em harpas e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem, mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros cuja verdade do canto nos toca matinalmente.

Penso nas flores cuja verdade das cores escorre no mel silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente jorrando luz,

embora tenha a noite pela frente.

Página branca onde escrevo.
Único espaço de verdade que me resta.
Onde transcrevo o arroubo,
a esperança,
e onde tarde ou cedo
deposito meu espanto
e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva se não explode pra fora
pra dentro explode implosiva.

Affonso Romano de Sant'Anna

O homem, as viagens...

Bad_Moon_by_voras-a sOoL!!

O homem, bicho da Terra tão pequeno

chateia-se na Terra

lugar de muita miséria e pouca diversão

faz um foguete, uma cápsula, um módulo

toca para a Lua

desce cauteloso na Lua

pisa na Lua

planta bandeirola na Lua

experimenta a Lua

coloniza a Lua

civiliza a Lua

humaniza a Lua

Lua humanizada: tão igual à Terra

o homem chateia-se na Lua

Vamos para Marte, ordena à suas máquinas.

Elas obedecem, o homem desce em Marte

pisa em Marte

experimenta

coloniza

humaniza Marte com engenho e arte

Marte humanizado, que lugar quadrado

vamos a outra parte?

Claro diz o engenho

sofisticado e dócil.

Vamos à Vênus

o homem põe o pé em Vênus,

Vê o visto, é isto?

Idem
Idem
Idem

O homem funde a cuca se não for à Júpiter

proclamar justiça com injustiça

repetir a fossa

repetir o inquieto

repetitório

Outros planetas restam para outras colônias.

o espaço todo vira Terra-a-terra.

o homem chega ao Sol ou dá uma volta

só para te ver?

Não vê que ele inventa

roupa insiderável de viver no Sol

põe o pé e:

Mas que chato é o Sol, falso touro espanhol domado.

Restam outros sistemas fora

do solar a colonizar.

ao acabarem todos

só resta ao homem

(estará equipado?)

a dificílima dangerosíssima viagem

de si mesmo a si mesmo:

por o pé no chão

do seu coração

experimentar

colonizar

civilizar

humanizar

o homem

descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas

a perene, insuspeitada alegria

de con-viver.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, setembro 18, 2006

Poema

Girl_and_Bird_II_by_kayceeus-a sOoL!!
"Podemos falar dos sentimentos, descrever as impressões que nos ameaçam, e revelar o vazio que se descobre na ausência um do outro: nada, porém, é tão inquietante como a dúvida, o não saber de ti, ouvir o desânimo na tua voz, agora que a tarde começa a descer e, com ela, todas as sombras da alma.

É verdade que o amor não é apenas um registo de memórias. É no presente que temos de o encontrar: aí, onde a tua imagem se tornou mais real do que tu própria, mesmo que nada te substitua.

Então, é porque as palavras são supérfluas; mas como viver sem elas? Como encontrar outra forma de te dizer que o amor é esta coisa tão estranha, dar o que nunca se poderá ter, e ter o que está condenado a perder-se?

A não ser que guardemos dentro de nós, num canto de um e outro a que só nós chegamos, sabendo que esse pouco que nos pertence é tudo o que cabe neste sentimento."

Nuno Júdice

domingo, setembro 17, 2006

Balancete

RicardoDaCosta
Correr

por estas estradas longas correr
por estas palavras ágeis
corretas

nada é o nosso tema

e

motivo

-oh maya: ilusão é o teu nome-
ai dos que buscam a perfeição em tempos pardacentos!

Correr

por estas estradas vastas como a vida
a suportar além da própria dor intransferível

a

desgraça nacional.

Antônio Brasileiro

segunda-feira, setembro 11, 2006

Variações do branco

"Ergues o olhar:

Surpreendes por instantes essa hora em que o mundo envelhece:

Tênues as variações do branco parecem dissolvê-lo
numa longínqua música,
anterior à chuva ou será então a imagem submersa
de um filme
a preto e branco

Há próximo um branco vibrante:

O da cal ainda recente
mas que a umidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza
na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui.
Quem te chame, digo.
Há o branco baço na parede que em frente em vão
separa
rua
e
praia.

Tendo já transposto essa fronteira incerta ou erguendo-se para lá dela
há o branco pobre da areia:

PunchLoveDrunk-a sOoL!!

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados
de mar
e céu.
Aí é agora o grande branco:
O clarão velado e difuso que guarda e distribui a memória embaciada
do azul
e do
verde,
do
ouro
e da
prata
— uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo
essa névoa branca e desolada
que o motor da paisagem produz.
As folhas do ar são como se fossem as levíssimas pétalas,
as vagas sílabas de uma neve
– e essa névoa engolfa,
atrasa
e
apaga
na travessia os simulacros
das
coisas
supostas
e
imaginadas
que o mundo te envia
enquanto
esperas
por
alguém
que
não virá."

Manuel Gusmão

Embora entedesses nada...

falling___by_kleinerkampfhamster

"Embora me escutasses nada saberás de mim
e fosses à janela
e embora olhasses não me vês que passo
e digas um adeus pequeno
e embora às vezes já sentisses náusea
e afinal te inclinas
e embora seca embora secamente
e finjo que não ligo
e embora as baças tênues luzes dás
e eu por timidez sempre apagado
e embora as marés-vivas batendo
e amámos nisso o Verão
e embora lerda a caneta se apure
e tu não entendesses nada
não entendesses nada."

Fernando Assis Pacheco

sábado, setembro 09, 2006

A índole da multidão

"Há suficiente Traição, Ódio, Violência,
Absurdo no Ser Humano Comum para abastecer qualquer exército
A Qualquer Momento.

E os Melhores Assassinos são aqueles que Pregam Contra o Assassinato.
E os Melhores no Ódio são aqueles que Pregam o Amor.
E os Melhores na Guerra - enfim- são Aqueles que pregam a Paz.

Aqueles Que Pregam Deus
Precisam de Deus
Aqueles Que Pregam a Paz
Não Têm Paz.
Aqueles que pregam o Amor
Não têm Amor

Cuidado com os Pregadores
Cuidado com os Conhecedores.
Cuidado com aqueles que estão Sempre a ler Livros
Cuidado com aqueles que ou Detestam a Pobreza ou se Orgulham Dela

Cuidado com aqueles rápidos em Elogiar
Pois Precisam de Louvores em retorno
Cuidado com aqueles rápidos em Censurar:
Esses Temem o que Desconhecem
Cuidado com aqueles que procuram constantemente Multidões;
Eles Não São Nada Sozinhos

bliss_by_CocoChantal-a sOoL!!

Cuidado:

O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
Cuidado com o Amor Deles

O seu Amor é Vulgar, busca Vulgaridade
Mas Há Força No Seu Ódio
Há Força Suficiente
No Seu Ódio Para Matar,
Para Matar Qualquer Um.

Não Esperando a Solidão
Não Entendendo a Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que defira
Deles Mesmos

Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte

Considerarão o Seu Fracasso
Apenas Como uma Falha
Do Mundo

Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles Acreditarão que o Seu Amor é Incompleto
Então Odiar-te-ão
E o Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
Como Um Tigre
Como Cicuta."
Charles Bukowski

Reconhecimento à Loucura


"Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objetos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.

Bruise_by_thegirlinthebigbox-a sOoL!!

E depois mostrar-nos o que há-de vir muito melhor do que está? E dar-nos a cheirar uma cor que nos faz seguir viagem sem paragem nem resignação? E sentirmo-nos empurrados pelos rins na aula de descer abismos e fazer dos abismos descidas de recreio e covas de encher novidade? E fazer frente ao impossível atrevidamente e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe a ponto do impossível ficar possível? E quando tudo parece perfeito poder-se ir ainda mais além? E isto de desencantar vidas aos que julgam que a vida é só uma? E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só,
loucura,
és capaz de transformar o mundo
tantas vezes quantas sejam as necessárias
para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões
que hão-de viver juntas.

Tudo,
exceto tu,
é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar a quem tas vier buscar.

José de Almada Negreiros

sexta-feira, setembro 08, 2006

As flores morrem ...

she_never_sleeps_by_raun-a sOoL!!
"(...) Caminhamos até este lugar. Fecho os olhos para conhecer o que se torna igual a uma promessa. As flores morrem nas jarras e deixam cair ao longo dos caules um peso estranho. Tu reparaste na sua transparência? Como era íntimo esse movimento capaz de vir percorrê-las para ser menor esta destruição. É assim que principia a perda do mesmo brilho que existe à nossa volta. Já nada espero e, por isso, deixei que de mim o tempo se afastasse. De longe chega uma voz e ela procura os lábios vazios até ficar dispersa pela névoa. É talvez uma única palavra. Há quem julgue que se trata da pronúncia que passa por uma ferida. (...)"

Fernando Guimarães

No primeiro dia

"Lembras-te quando as romãs
se apertavam contra o peito?

Era maio.
Era o sul.

Quem se lembra de nós?
Quem nos respira?
Quem abre as cortinas e espreita,
a saber de nós?

Curaste o rio da rebelião.
Curaste a seiva.
Vês como cresce em esplendor?
Desde maio que floresce.

Desde maio.
Desde maio que se desfaz em lágrimas.

Como é sentir o cordão a romper-se?
Como é sentir a terra tão longe,
que dá vontade de cair
só para experimentar o delírio da queda,
a solidão do ar que se respira desfeito em partículas?

Não sei onde me fixar,
tenho o olhar perdido,
o cabelo em desalinho,
as mãos agitadas à procura.

Que dizer agora que a solidão bate à porta?
Que te dizer, amor, senão que a vida se pode emendar,
que a vida se pode redimir e retomar o sonho?
Que te dizer senão que o meu sangue se despede
e já nada resta a não ser um acordar?
Um acordar onde tu apedrejas aos anjos
e me queimas os olhos no fogo.

Desintegra-te,

respira quando doer,

dilacera-te.

Dilacera-te, meu amor.

E de repente acontece sentir.

Era maio.
As giestas de maio:
que beleza, que sabor tão doce!

Se eu soubesse partilha-lo contigo
o mundo acabava aqui,
no primeiro dia."

Ingrid Choren

quinta-feira, setembro 07, 2006

Dos segredos...

Appel_au_Ciel_by_anacoluthe-a sOoL!!"Se a noite se perder em ritmos de água, eu morrerei.
Não há palavra mais doce que aquela que se despe
lentamente na baía, na nostalgia de si mesma.

Outrora era a evidência do verso, rumor de aves,
lagos espirais caminhos por entre fontes e azuis
danças de deus nos longínquos areais, mas as
incertezas acumularam-se depois do sono, lembranças
da infância, da fronteira, dos açudes ruidosos.

Eu morrerei se ouvir de novo essa voz, por isso
afastai-a célere dos oceanos,
das portas entreabertas,.
Essa palavra é doce e mortífera: amai-a

Longe de mim onde o silvo, o alarme das estações, é uma
espada, um gume à deriva no corpo.
Ficarei entre sinais, escombros,
longe das margens dos lagos, leve."

Francisco José Viegas

Não esses especialmente...

Morremos de vez, é certo.
Por isso, a vida é uma coisa,
De que acontece, ou não, gostar.

Mas, sendo assim, porque me acontece
Gostar do mato vermelho,
Da erva cinzenta e do céu verde cinza?

Good_Bye____by_Gwarf-a sOoL!!
E mais? Mas, vermelho,
Cinzento, verde, porquê, especialmente?
Não foi isso que eu disse:

Não esses especialmente. Apenas esses.
Gostamos do que acontece gostarmos.
Gostamos da maneira como o vermelho cresce.

Não tem nenhuma importância.
Acontecer gostar é uma das maneiras
Que as coisas têm de acontecer.

Wallace Stevens

O vermelho por dentro

Forgotten_love_by_Batteryhq-a sOoL!!
"Estão envolvidos em corpos negros
vermelhos por dentro.
Estão num barco sobre o mar
e o mar é negro.

É de noite.
O céu está negro
e sobre a água negra
tudo é vermelho por dentro.

Os corpos eram negros sobre o mar
a água era de noite
não se via o vermelho por dentro
os corpos não se viam
eram barcos com os ventres todos negros
e as línguas eram de águas muito rentes.

A sangue não sabia
não se via o vermelho por dentro
o céu a água envolvia tudo
envolvia nos vermelhos dentros
e os mares
todas as noites estavam negros
negros por dentro.

E a água volvia pelo céu
tão negra
e à noite
por dentro do mar todo vermelho
a noite era vermelha
e os barcos negros por dentro.

E nos corpos a água negra era vermelha
por dentro
e eles estavam envolvidos

e ..."

Ana Hatherly

terça-feira, setembro 05, 2006

Pedra Filosofal

AlexandreCosta-a sOoL!!
"Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora,cisão de átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança."

António Gedeão

Rasgando caminhos...

"Faz de conta que o tempo voou. Estrangulou o dia, rasgando caminhos confusos da cidade invisível. Depois enrosca-te na penumbra, afasta as sombras gravadas misteriosamente e entre insônias de horas perdidas, esquece-me pouco a pouco. Desfaz as memórias e vai secando as idéias, encharcadas do perfume acumulado na raiva das minhas veias.

Debruça o olhar no presente, abre a janela e engole as luzes das noites. Saboreia cada sussurro oculto, nas horas que ouves na grande solidão. Adormece na inquietude das paredes brancas, cheias de falsos sonhos, enquanto fugirei de mim silenciosamente.

Desce de novo os teus olhos, ao fascínio ardente da água teimosa, do mar que nos fez sentir vivos, numa prolongada espera.

É então tempo de caminhar, voar no esquecimento das emoções, partir sem som."

L. Maltez

Ontem é uma árvore de longas ramagens...

Golden_sommer_day_by_Floriandra-a sOoL!!
"Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.

Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.

De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atónitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...

Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias (...)"

Pablo Neruda

domingo, setembro 03, 2006

The carnival is over...

Mysterium_Iniquitatis_by_BlueBlack.-a sOoL!!"Lá fora...

Nuvens de chuva se reúnem
Passam silenciosas pela empoeirada avenida
Onde as flores erguem seus frágeis caules
E elas podem, uma a uma, alcançar e beijar o céu

São movidas por um estranho desejo

Invisível ao olho humano

Alguém chama...

Lembro-me de quando você segurou a minha mão
Brincávamos no parque quando o circo chegou à cidade

Olhe... Veja!

Nada mais existe...

Lá fora...

O circo se reúne
Movem-se silenciosos pela avenida que a chuva varreu
A procissão seguiu em frente
A balbúrdia terminou
As fabulosas atrações estão deixando a cidade

São movidos por um estranho desejo

Invisível ao olho humano

O carnaval se foi...
Nós nos sentamos e assistimos,

Como se a Lua novamente nascesse...

Pela primeira vez..."

Dead Can Dance - Lisa Gerrard e Brendan Perry- Tradução livre

sexta-feira, setembro 01, 2006

A vida

AlbaLuna-a sOoL!!
"(...)

A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:

A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida – pena caída
da asa de ave ferida -
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!"

João de Deus

domingo, agosto 27, 2006

A menina...

secrets_beneath_by_horrificbeauty-a sOoL!!
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando o seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

Cecília Meireles

Impossível

Hope_in_darkness_by_jantar_mantar-a sOoL!!Impossível cantar-te
como cantei o amor adolescente
colorindo de ingenuidade
paisagens e figuras reduzindo-o
à mesma atmosfera rarefeita
do sonho sem percurso no real
Impossível tomar o íngreme caminho
da aventura mental
ou imaginar-te pelo fio estéril
da solitária imaginação

Tão-pouco desenhar-te como estrela
neste céu infame
dizer-te em linguagem de jornal
ou levar-te à emoção dos outros
pela voz contrafeita da poesia

Impossível

Impossível não tentar dizer-te
com as poucas palavras que nos ficam
da usura dos dias
do grotesco discurso que escutamos
proferimos
transidos de sonho no ramal do tempo
onde estamos como ervas
pedrinhas
coisas perfeitamente inúteis
pequenas conversas de ferrugem de musgo
queixas
questiúnculas
arrotos comoventes

Alexandre O'Neill

Gestos

let_me_know_the_way_by_nFeel-a sOoL!!
"Vivo na esperança de um gesto que hás-de fazer.

Gesto, claro, é maneira de dizer, pois o que importa é o resto que esse gesto tem de ter.

Tem que ter sinceridade sem parecer premeditado; e tem que ser convincente, mas de maneira diferente do discurso preparado.

Sem me alargar, não resisto à tentação de dizer que o gesto não é só isto...

Quando tu, em confusão, sabendo que estou à espera, me mostras que só hesitas por não saber começar, que tentações de falar!

Porque enfim, como advinhas, esse gesto eu sei qual é, mas se o disser, já não é..."

Reinaldo Ferreira

Um dia branco

Moving_on___by_jantar_mantar-a sOoL!!
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pequenas coisas


"Falar do trigo e não dizer o joio.

Percorrer em voo raso os campos sem pousar os pés no chão.

Abrir um fruto e sentir no ar o cheiro da alfazema.

My_little__dreamy_world_by_mmenathalie-a sOoL!!
Pequenas coisas, dirás, que nada significam perante esta outra, maior:

Dizer o indizível.

Ou esta:

Entrar sem bússola na floresta e não perder o rumo.

Ou essa outra,

maior que todas e cujo nome por precaução omites.

Que é preciso, às vezes, não acordar o silêncio."

Albano Martins

Saberes...

Like_An_Angel_by_TOYIB-a sOoL!!
Podíamos saber um pouco mais da morte.
Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais depressa.

Podíamos saber um pouco maisda vida.
Talvez não precisássemos de viver tanto,
quando só o que é preciso é saber que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais do amor.
Mas não seria isso que nos faria deixar de amar
ao saber exatamente o que é o amor,

Ou amar mais ainda ao descobrir que,
mesmo assim,
nada sabemos do amor.

Nuno Júdice

sexta-feira, agosto 25, 2006

Das casas e dos homens...

Samara_s_eyes_by_NanFe-a sOoL!!

"Eu falo das casas e dos homens, dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome, as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites, e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma, de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida,
os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,

- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,

uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada..."

Adolfo Casais Monteiro

Ervas daninhas...

Dollop_by_AriyaSnow-a sOoL!! "(...)

Restam apenas ervas daninhas? Pior ainda: as ervas daninhas estão de tal maneira emaranhadas nas boas que não se consegue enfiar as mãos no meio e puxar. Dir-se-ia que se criou um pacto de cumplicidade entre as ervas de semeadura e as ervas selvagens, um afrouxamento das barreiras impostas pelas desigualdades de nascimento, uma tolerância resignada em relação à degradação. Algumas ervas espontâneas, por si só, não têm de modo algum um aspecto maléfico e insidioso. Porque não admiti-las no número das que pertencem ao prado de pleno direito, integrando-as na comunidade das que foram cultivadas?

(...)"

Italo Calvino

quinta-feira, agosto 24, 2006

Libertação de um anjo

ethereal_infringement_by_SubterfugeMalaises-a sOoL!! "seqüências

(O que será preciso fazer para mudar
para mudar não se sabe o quê.

(Do que se está à espera de chegar
para chegar não se sabe onde.)

O[um] anjo desencantou-se
Sumiu-se evaporou-se

Libertou o seu espírito

O anjo não era livre
As suas asas eram grilhetas.

O descanso, finalmente.
O anjo pode enfim dormir
Sentiu pela primeira vez prazer.

continuações
hey_little_angel_by_RedMagda-a sOoL!!

Desperto de corpo
E de sentidos
Ouve e sai sem medos

Desde que saiba e sinta.

Sai por montes e vales,
De costas voltadas aos outros
E a si próprio

O que sente,
Só por poemas
Narrações da imaginação.
Por ferro e fogo,
Trovões,

Relâmpagos que ofuscam os olhos
Cegueiras, assumidas
Vidas sumidas
Esvaziadas,
Perdidas."

Carlos Veríssimo

Rostos...

KatrinAdam-a sOoL!!
"Acontece por vezes não encontrar um olhar que sirva de depósito para os meus sentimentos.
Um rosto que aguardasse o tempo obscuro da minha vida.
Ou um campo corporal que resgatasse o que é verdade nos meus atos.
Escuto sempre o movimento de alguém a gotejar na minha direção, como se as palavras que indicam os seus passos enlouquecidos não encontrassem o meu coração.
Porque há palavras que se perdem na forma de as pensar.
E porque um olhar sem distância é a cegueira natural da humanidade.
Rostos exaustivos, granulados em consequência da proximidade da alma.
O meu olhar homicida a justificar uma falta de vida.
Como se eu me transformasse num animal parecido com os olhos de quem escrevo.
Um animal cego que transporta o perfume de uma palavra no interior do teu olhar. "

Fernando Esteves Pinto in: Escrita Ibérica

terça-feira, agosto 22, 2006

A Consolação da Filosofia (exerto)

ArturK-a sOoL!!
" (...) 'Peço-te, portanto que agora me digas se achas que o acaso existe realmente e, caso exista, em que ele consiste. Apresso-me a cumprir minha promessa e abrir-te o caminho que leva diretamente à tua pátria. Ora, essas questões, embora seu entendimento seja útil desviarão um pouco do nosso caminho, e temo que tais desvios te fatiguem e talvez até te impeçam de percorreres até o fim o caminho reto.'

'Não', disse eu, 'não tens nada a temer, pois essa será para mim uma ocasião de refrear minha inquietude e de me instruir sobre temas que tanto me interessam. Cada ponto de tua argumentação me parecerá irrefutável, e nenhuma das conclusões será posta em dúvida.'

'Vou então satisfazer o teu desejo', e logo começou da seguinte maneira:

'Se definirmos o acaso como um acontecimento produzido acidentalmente e não por uma seqüência de qualquer tipo de causa, longe de consentir na definição, considero essa palavra absolutamente desprovida de sentido, salvo a significação da realidade a que ela se refere. Com efeito, se Deus obriga todas as coisas a se dobrarem às suas leis, onde haveria lugar para o acaso? Nada pode ser feito a partir do nada: esse é um axioma cuja verdade jamais foi contestada, embora os antigos o fizessem princípio, não do princípio criador, mas da matéria criada, isto é, da natureza sob todas as suas formas. Ora, se um fato se produzisse sem causa, poderíamos dizer que ele surgiu do nada. E, se isso não pode ocorrer, também o acaso, tal como o acabamos de definir, não pode se produzir.'

'Mas quê!', disse eu, 'não há nada que possa ser chamado de acaso ou acidente'? Ou existirá uma outra realidade, que escapa a compreensão dos homens, à qual possam corresponder essas palavras?'

Ela respondeu: 'Aristóteles, a quem eu tanto amo, nos fornece na sua Física uma definição ao mesmo tempo breve e próxima da verdade.'

'E qual é?', perguntei.

'Ele diz que toda vez que uma ação é realizada com um determinado fim, mas algo além do que estava sendo procurado acontece por uma razão ou outra, isto se chama acaso, como por exemplo quando alguém cava o solo para fazer um plantio e encontra ali um tesouro que estava escondido. Pode-se crer com certeza que isso aconteceu fortuitamente e, no entanto, o que ocorre não provém do nada; o acontecimento tem causas próprias, cujo conteúdo imprevisto e inesperado parece ter sido produzido pelo acaso. Pois, se o agricultor não tivesse sulcado o solo e o homem que colocou ali seu dinheiro não o tivesse escondido no local, o ouro nunca teria sido descoberto. Tais são portanto as causas desse ganho fortuito que resulta de uma série de circunstâncias e não de uma ação intencional. Com efeito, nem aquele que enterrou o ouro nem aquele que revolveu seu campo agiram com a finalidade de que esse ouro fosse descoberto; mas, como eu já disse, acontece, por uma soma de circunstâncias, que um revolveu a terra justamente onde o outro ha­via escondido o ouro. Podemos portanto definir o acaso como um acontecimento inesperado, resultado de uma somatória de circunstâncias, que aparece no meio de ações realizadas com uma finalidade precisa; ora, o que provoca um tal conjunto de circunstâncias é justamente a ordem que procede de um encadeamento inevitável e tem como fonte a Providência, que dispõe todas as coisas em seus lugares e tempo.' (...) "

Boécio - (480 – 524 d.C.)

segunda-feira, agosto 14, 2006

A clemência do Tempo.

ManoelSeoane-a sOoL!!

No tempo há a nobre clemência da proporção
Com generosidades para lá do acreditar
(embora carne e sangue o acusem de coação
ou mente e alma o condenem por decepcionar)

Os seus caminhos não são racionais nem irracionais,
a sua sabedoria anula conflito e entendimento
- os saaras têm os seus séculos; dez mil
dos quais são mais pequenos do que a rosa para um momento

Há tempo para rir e há tempo para chorar –
para a esperança para o desespero para a paz para a saudade
- um tempo para crescer e um tempo para morrer:
uma noite para o silêncio e um dia para cantar

Mais do que tudo (como os teus mais do que olhos
me dizem) há um tempo para a eternidade.

E. E. Cummings - Tradução de Cecília Rego Pinheiro

domingo, agosto 13, 2006

O que acontece

Hiob-a sOoL!!Aconteceu
e acontece agora como dantes
e continuará sempre a acontecer
se não acontecer nada contra isso

Os inocentes
não sabem de nada
porque são demasiado inocentes
e os culpados
não sabem de nada
porque são demasiado culpados

Os pobres não dão por isso
porque são demasiado pobres
e os ricos não dão por isso
porque são demasiado ricos

Os estúpidos encolhem os ombros
porque são demasiados estúpidos
e os espertos encolhem os ombros
porque são demasiado espertos

Aos jovens isso não preocupa
porque são demasiado jovens
e aos velhos isso não preocupa
porque são demasiado velhos

Eis por que não acontece nada contra isso
e eis por que razão aconteceu
e acontece agora como dantes
e continuará sempre a acontecer

Erich Fried - Tradução de Yvette Centeno

A proeminência da mão direita

JolaBakoniuk-qa sOoL!!É a mão direita que domina.

A esquerda obedece
cegamente.

É a mão direita que fere.

A esquerda consola.

É a mão direita que disciplina,
brutaliza.

A esquerda, é o exercício
próximo e doméstico
de afagar
o que a comove, o que
recatadamente a silencia.

Esta é a terra,
os modos de nela me orientar:
as minhas mãos, a proeminência
da direita sobre a esquerda,
o que toda a vida quis negar.

Luís Quintais

sexta-feira, agosto 11, 2006

"Sofrer" a liberdade

KarelSobota-a sOoL!!"(...) Talvez ao abrir a ferida, a minha própria ferida, tenha fechado outras feridas, feridas de outras pessoas. Morre qualquer coisa, floresce qualquer coisa. Sofrer na ignorância é horrível. Sofrer deliberadamente, para compreender a natureza do sofrimento e aboli-lo para sempre, é muito diferente. O Buda, como sabemos, teve toda a vida um pensamento fixo no espírito: eliminar o sofrimento humano. Sofrer é desnecessário. Mas temos de sofrer para compreender que é assim.

Além disso, é só então que o verdadeiro significado do sofrimento humano se torna claro. No derradeiro momento desesperado - quando não podemos sofrer mais! - acontece qualquer coisa que tem a natureza de um milagre. A grande ferida aberta pela qual se escoava o sangue da vida fecha-se, o organismo desabrocha como uma rosa. Somos 'livres', finalmente (...). Não são as lágrimas que mantêm viva a árvore da vida, mas sim o conhecimento de que a liberdade é real e eterna. (...)"

Henry Miller

A dupla existência da verdade...

Darren-a sOoL!! "Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza! Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar, mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas.

E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sentimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão. Nesses momentos, em que compreenderia os ascetas e os retirados, se houvesse em mim poder de compreender os que se empenham em qualquer esforço com fins absolutos, ou em qualquer crença capaz de produzir um esforço, eu criaria, se pudesse, toda uma estética da desconsolação, uma rítmica íntima de balada de berço, coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos de outros lares.

Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se tinham passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade."

Bernardo Soares

segunda-feira, agosto 07, 2006

Fazedor de Homens

ArturK-a sOoL!!

I
Todo homem é uma ilha...
Toda mulher é uma ilha.

É bom ser uma ilha distante
tanto quanto é bom ser um homem.

Todo homem possui uma ponte

pois é preciso sair da ilha, seguro.
A ponte de um homem é um braço estendido.

Todo homem é um mundo.

O mundo roda no sistema egocêntrico
de suas realidades,
pequenos alumbramentos,
medos e coragens.
E quando o homem encara o mundo e se depara
- homem-mundo,
mundo-homem,
volta à ilha:

Todo homem ama sua ilha.

II

O homem faz o homem.

E porque fez o homem, sem nem o homem querer
aufere direitos do homem.

Diz a ele: Cresça!
E ele fica mais alto.
Diz ao homem: Trabalhe!
E ele usa o corpo.
Diz ao homem: Viva!
E ele respira e existe.
Diz ao homem: Ame!
E ele não sabe como.
Mas diz ao homem: Procrie!
E ele faz homens.

Um dia ele morre.

Se a vida foi longa para viver -
é curta para morrer -
porque o homem não fez, não escolheu,
não pensou nada.

III

O que faz um homem diferente de outro homem
é o que ele pensa.
O que o transforma, também,
de um simples fazedor de homens,
num criador de homens.

Todo homem é uma vontade.

E se deixa de ser vontade
teme a perda de sua posse.

Todo homem é uma consciência.

Nela inclui o seu saber
e a parte maior do não saber,
e se aceita o fato, é com ela que ele se entende.

Todo homem é seu corpo.

E sabe dele em contraste com outro corpo,
tal é a sua medida.
Como também, a medida de um homem é a sua carência:
porque é assim que ele se assume,
porque é assim que ele se liberta.

Quanto mais ele precisa
mais ele é maior. E dá.
Pede. Reivindica. Exige, quanto pode.
Luta e sofre.

Todo homem quer deixar sua ilha.

Temeroso de ter que voltar um dia, entretanto,
não destrói as pontes.
Enquanto isso, a ilha fica ali, só ilha.
A ponte fica ali, só ponte.

E o homem fica ali, só homem.

Carlos Drummond de Andrade

Vitral

ArturSokolowski-a sOoL!!

"Confesso a minha impiedade: não consigo amar a Deus. Não consigo amar nada abstrato. Preciso de um rosto, de uma voz, de um olhar, de um toque de mão. Amo com os meus sentidos. Mas Deus, eu nunca vi. Não sei como ele é. Por isso não consigo amá-lo. Meu mestre Alberto Caeiro está pior do que eu, pois chega ao ponto de afirmar que nem mesmo pensar em Deus ele consegue. “Pensar em Deus é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o conhecêssemos, por isso se nos não mostrou.“

O amor é o melhor tônico de memória. Quando o nome da coisa amada é pronunciado, ela logo ressuscita dos mortos e aparece viva em nossa imaginação. E o corpo se enche de saudades. A saudade é o sintoma de que uma coisa amada-perdida saiu do túmulo. Mas o nome de Deus não faz nada com a minha memória. Não provoca ressurreições. Não sinto saudade de coisa alguma. O corpo não se comove.

Gosto do poema de Brecht intitulado 'Prazeres'. Sem rimas ou métrica, é uma simples enumeração de algumas das coisas que o faziam feliz... Vidros coloridos de um vitral.

“A primeira olhada pela janela de manhã.
O velho livro de novo encontrado.
Rostos entusiasmados.
Neve, a mudança das estações.
O jornal.
O cão.
Tomar banho.
Nadar.
Velha música.
Sapato confortável.
Perceber.
Nova música.
Escrever, plantar.
Viajar.
Cantar.
Ser amigo.“
(...)

Hermann Hesse escreveu um livro intitulado 'O Jogo das Contas de Vidro'. É a história de uma ordem monástica na qual os seus membros, em vez de gastarem o seu tempo com ladainhas e exercícios semelhantes, se dedicavam a um jogo que era jogado com contas de vidro coloridas. Eles sabiam que os deuses preferem a beleza às monótonas repetições sem sentido. O livro não descreve os detalhes do jogo. Mas eu sei do que se tratava. (...) Vitrais também são jogos de contas de vidro. Foi na poesia de uma poetisa minha amiga, ex-aluna, Maria Antônia de Oliveira, que pela primeira vez vi a vida como um vitral.

RufinoTamayo-a sOoL!!

"A vida se retrata no tempo formando um vitral,
de desenho sempre incompleto,
de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços
ficando buracos, irreversíveis.
Os cacos se perdem por aí.
Às vezes eu encontro cacos de vida
que foram meus, que foram vivos.
Examino-os atentamente
tentando lembrar de que resto faziam parte.
Já achei caco pequeno e amarelinho
que ressuscitou de mentira, um velho amigo.
Achei outro pontudo e azul,
que trouxe em nuvens um beijo antigo.
Houve um caco vermelho
que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse
de onde me pertencera."

Esses cacos de vitral, essas contas de vidro coloridas - isso meu corpo e minha alma amam, para todo sempre. O amor não se conforma com o veredicto do tempo - os cacos do cristal se perdendo dentro do mar, as contas de vidro colorido afundando para sempre no rio do tempo.

Quero que tudo que eu amei e perdi me seja devolvido. Todas essas coisas moram nesse imenso buraco dolorido da minha alma que se chama saudade.

Para isso eu preciso de Deus, para me curar da saudade. Dizem que o remédio está no esquecimento. Mas isso é o que menos deseja aquele que ama. Conta-se de um homem que amava apaixonadamente uma mulher que a morte levou. Desesperado, apelou para os deuses, pedindo que usassem seu poder para lhe devolver a mulher que tanto amava. Compadecidos, eles lhe disseram que devolver a sua amada eles não podiam. Nem eles tinham poder sobre a morte. Mas poderiam curar o seu sofrimento, fazendo-o esquecer-se dela. Ao que ele respondeu: “Tudo, menos isso. Pois é o meu sofrimento o único poder que a mantém viva, ao meu lado!“

Também eu não quero que os deuses me curem, pelo esquecimento. Quero antes que eles me devolvam minhas contas de vidro. E é assim que eu imagino Deus: como um fino fio de nylon, invisível, que procura minhas contas de vidro no fundo do rio e as devolve a mim, como um colar. Não por ele mesmo (sobre quem nada sei), mas por aquilo que ele faz com minhas contas....

Quero Deus como um artista que cata os cacos do meu vitral, partido por pedradas ao acaso, e os coloca de novo na janela da catedral, para que os raios de sol de novo por eles passem.

O que eu quero é um Deus que jogue o jogo das contas de vidro, sendo eu uma das contas coloridas do seu jogo..."

Rubem Alves

domingo, agosto 06, 2006

No silêncio...

JoannaN-a sOoL!!"Que é que eu penso do amor? — Em suma não penso nada. Bem que eu gostaria de saber o que é, mas estando do lado de dentro, eu o vejo em existência não em essência. O que quero conhecer - o amor - é exatamente a matéria que uso para falar - o discurso amoroso. A reflexão me é certamente permitida, mas essa reflexão é logo incluída na sucessão das imagens, ela não se torna nunca reflexividade: excluído da lógica - que supõe linguagens exteriores umas as outras - não posso pretender pensar bem. Do mesmo modo, mesmo que eu discorresse sobre o amor durante um ano, só poderia esperar pegar o conceito "pelo rabo": por flashes, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos pelo grande escoamento do Imaginário; estou no mau lugar do amor, que é seu lugar iluminado: 'O lugar mais sombrio...' - diz um provérbio chinês - 'é sempre embaixo da lâmpada.' "

Roland Barthes

O tapete...

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio
Algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


Alexandre O'Neil