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Música Brasileira

"Não é bom para o homem estar só mas ele está só, mesmo assim, ele espera e está só, ele adia e está só, só ele sabe que mesmo adiando chegará."
Natan Zach

terça-feira, novembro 08, 2005

Clown

Um dia.
Um dia, breve talvez.
Um dia eu arrancarei a âncora quem mantém meu navio longe dos mares.
Com aquela espécie de coragem necessária para ser nada e nada e nada,
eu me desprenderei daquilo que me parece estar indissoluvelmente próximo.
Eu o talharei, eu o derrubarei, eu o quebrarei e o farei degringolar.
Vomitarei meu miserável pudor, meus miseráveis arranjos e acorrentamentos
"de fio na agulha".
Esvaziado do abcesso de ser alguém, beberei novamente o espaço nutritivo.
Por ridículo, por degradação (o que é degradação?), por explosão, por vazio,
por uma total dissipação irrisão purgação, expulsarei de mim a forma
que se acredita muito bem atada, composta, coordenada, harmonizada ao
meu séquito e aos meus semelhantes, tão dignos, tão dignos, meus semelhantes.
Reduzido a uma humilde catástrofe, a um nivelamento perfeito como após um intenso medo.
Reconduzido aquém de toda medida ao meu verdadeiro lugar, ao lugar
ínfimo do qual não sei que idéia ambição me fez desertar.
Aniquilados o orgulho e a estima.
Perdido em um local distante (ou não), sem nome, sem identidade.


Palhaço, derrubando na risada, no grotesco, na gargalhada, o juízo que contra toda luminosidade
eu fiz para mim mesmo de minha impaciência.
Eu mergulharei.
Sem bóia no espírito-infinito subjacente aberto a todos, aberto eu mesmo
a um novo inacreditável orvalho
à força de ser ninguém
e raso...
e risível...

Henri Michaux - Tradução: Lenilde Freitas



2 comentários:

Anônimo disse...

É isso ai..." A FORÇA DE SER NINGUÉM".

Tudo muito bem colocado.

Beijos,

Luciana....! £uci@n@ !

ernesto esteves disse...

Fantástico.
Vi este blog no LitleNeo e tive curiosidade em saber como era. Ainda bem que o vi... Parabéns!!!