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Música Brasileira

"Não é bom para o homem estar só mas ele está só, mesmo assim, ele espera e está só, ele adia e está só, só ele sabe que mesmo adiando chegará."
Natan Zach

Sábado, Fevereiro 11, 2012

As velas ardem até ao fim (trecho)

"O tempo passava e a vida tornava-se cada vez mais opaca em redor de mim. Os livros acumulam-se, adensam-se. E cada livro continha uma pitada da verdade e cada recordação insinuava que é vão conhecer a verdadeira natureza das relações humanas, porque nenhum conhecimento torna uma pessoa mais sábia.(…) O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal? "[....]


"... Porque amamos sempre a pessoa diferente, procuramo-la em todas as situações e variantes da vida... O maior segredo e dádiva da vida, quando duas pessoas semelhantes se encontram... Isso é tão raro, como se a natureza impedisse com força e astúcia essa harmonia - talvez porque para a criação do mundo e para a renovação da vida necessita da tensão que se gera entre as pessoas que se procuram eternamente, mas que têm intenções e ritmos de vida opostos... "

Sandor Marai

Domingo, Janeiro 22, 2012

Verdade


Sempre procuramos a Verdade.
Ela tem medo de ser pega.
Livros são gaiolas.
Verdade não é um canário
Para ciscar palavras com paciência
E morrer depois de comer todas.

A verdade não gostaria de viver
Na cabeça ou na garganta ou no coração de alguém.
Não tente acha-la ali.

A verdade não é dríade pra ser punida numa arvore
A verdade não é nenhuma naiade.
A verdade certamente se afogaria numa fonte.

Deixe a terra em paz.
A verdade não deixa pegadas.
Não escute
Até o silencio se pôr com a lua.
A verdade não faz ruídos.
Não siga a luz
Que segue o sol
Que segue a noite.
A verdade dança além da luz
E do sol
E da noite.
A verdade não pode ser vista.

Deixe a curiosidade ficar em casa.
Ela pode se perder.
(A verdade freqüenta antros estranhos.)
Se, criança, o segredo se calça,
Um dia será imprudência.

Deixe a verdade em paz.
A verdade não pode ser pega.
Acho que ela não vive nada, não,
Pois teria medo de morrer, então.

Laura Rinding - Trad.: Rodrigo Garcia

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Trecho do livro "A Náusea"

(...) "Afinal, não pensas, nem de longe, o mesmo que eu. Queixas-te, porque as coisas não se dispõem à tua volta como um ramo de flores, sem te dares ao trabalho de fazer seja o que for. Mas nunca eu pedi tanto: queria agir. Lembras-te de quando brincávamos ao aventureiro e à aventureira? Tu eras aquele a quem sucedem aventuras, eu aquela que as fazia suceder."

Dizia eu: “Sou um homem de ação.” Lembras-te? Pois bem, agora digo simplesmente: “Não se pode ser um homem de ação.”

(...)

"E depois há uma quantidade de outras coisas que não te disse, porque levaria muitíssimo tempo a explicar-te. Seria preciso, por exemplo, poder dizer, no momento em que agia, que o que estava a fazer teria consequências... fatais. Não posso explicar-te bem..." 

"Mas é perfeitamente inútil", digo eu com um ar bastante pedante; "também isso eu pensei."

Ela olha-me com desconfiança.

"A julgar pelo que dizes, terias pensado tudo da mesma maneira que eu: muito me espanta."

Não posso convencê-la; não conseguiria mais do que irritá-la. Calo-me. Tenho vontade de a cingir nos meus braços. De súbito, ela olha para mim com uma expressão de ansiedade.

"E então, já que pensaste nisso tudo, que nos resta agora fazer?" Baixo a cabeça.

"Vou... vou sobrevivendo a mim própria", repete ela, pesadamente.

"Que poderei dizer-lhe? Conheço eu algumas razões para viver? Não estou, como ela, desesperado, porque nunca tinha esperado grande coisa. Estou é... espantado diante desta vida que me é dada... dada para nada. Conservo a cabeça baixa (...)"

Jean Paul Sartre - Trad. de António Coimbra Martins

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Na Véspera



"Na véspera de nada ninguém me visitou.

Olhei atento a estrada durante todo o dia

Mas ninguém vinha ou via, ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar

Queira dizer que há

Outra estrada que achar,

Certa estrada que está,

Como quando da festa

Se esquece quem lá está."

Fernando Pessoa

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

A Eternidade


De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.


De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.




Arthur Rimbaud - trad. Augusto de Campos

A jornada


"Um dia você finalmente descobriu o que tinha de fazer e então começou, mesmo que as vozes que te rodeavam continuassem vociferando péssimos conselhos – mesmo que a casa inteira começasse a estremecer e você sentisse a velha fisgada em seus calcanhares.

“Redima minha existência!” Clamaram as vozes. Mas você não se deteve. Sabia o que tinha de fazer, mesmo que o vento o perseguisse com seus dedos enrijecidos com todas as suas forças, mesmo que a melancolia por eles possuída se mostrasse aterradora.

Já era tarde o suficiente, e a noite, tempestuosa e a estrada, repleta de galhos caídos e pedras pelo caminho. Porém lentamente, ao deixar aquelas vozes para trás as estrelas começaram a brilhar através dos lençóis de nuvens, e lá estava ocultada nova voz que lentamente reconheceste como sua, que se manteve em sua companhia enquanto adentrava a passos largos no mundo, determinado a fazer a única coisa que poderia fazer - determinado a salvar a única vida que pôde salvar."

Mary Oliver - trad.: Wagner Miranda

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

Inscrição

Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!

Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.

Passeio no gume de estradas tão graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

Cecília Meireles

Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

O coração que ri



A tua vida é a tua vida. 
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento. Há outros caminhos, há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas vence a escuridão.
Está atento. Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo, mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida. Memoriza-a enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem em ti.

Charles Bukowski